Homens matando homens

Um homem atira em outro homem, matando-o. Caso a situação seja de violência pessoal, infringida do homem alvejado sobre o homem que nele atirou, a reação do primeiro é compreensível. É compreensível enquanto reação, ou seja, se ocorreu na situação mesma. Uma resposta violenta que ocorra em um outro momento não é uma reação compreensível, mas vingança.

Policiais deveriam ser treinados para proteger a vida. Um homem armado invade uma creche e faz reféns as crianças. A polícia deve procurar um meio de neutralizar o potencial ofensivo do invasor. Isto não necessariamente significa matá-lo. A vida do invasor também precisa ser preservada. Caso não haja outra saída para a situação senão a morte do invasor, então esse caminho será tomado. E o trabalho da polícia e a situação devem ser periciados, para que se averigue se realmente não era possível um outro desfecho.

No Rio de Janeiro, contudo, pessoas na rua falam que “bandido deve ser morto”. Viaturas policiais circulam com o cano da metralhadora apontado para os passantes. Parados na rua, os policiais estão sempre de metralhadora na mão. A morte é a primeira opção, para essas pessoas. O governador e deputados foram eleitos tendo como carro-chefe o discurso de que homens não policiais que portem fuzis serão mortos.

O governador fala em “atirar na cabecinha”, deles. Um deputado federal comemora, no facebook, uma cena em que o homem que tomou uma idosa por refém foi morto pela polícia. O deputado usou a expressão “cpf cancelado”. Os comentários a essa postagem reproduzem a expressão. Confirmando Agamben, a vida tornou-se um cpf, um registro. É um vídeo game em que o personagem morre com um headshot desferido por um drone.

Não são homens matando homens, e que então respondem por isso. São policiais truculentos, deputados e governador que falam, com sorriso nos lábios, sobre o encerramento da vida de outras pessoas. É a Constituição, o Estado sendo jogado fora por agentes públicos que se aproveitam da necessidade de segurança das pessoas, que às vezes se apresenta como sede de vingança, para exercer suas inclinações pessoais para a covardia.

Covardes, por se sentirem impunes, matam homens. Falo dos agentes públicos. O homem comum, que comete crimes violentos, sabe que não será punido com justiça, pois a cadeia também é um inferno. Ele sabe que infelizmente poderá ser morto a qualquer momento. Quem o mata adora dizer que o povo o apóia, e com isso fazem sua sensação de impunidade.

A pessoa comum quer segurança. Mas não quer um país em que o Estado mate. Não quer o fim da vida. Também quer menos armas na rua, pois sabe que um disparo, vindo de onde vier, desencadeia uma guerra.

Gostou? Compartilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *