Jesus era da turma dos Direitos Humanos!

Jesus fez uma revolução, e isso muito antes do proletariado. Foi a revolução do amor. A lei maior de Jesus era: dê a outra face para que batam. Isso é o amor. Nunca reagir! Acolher a todos, sejam bandidos, corruptos, prostitutas, etc. Expus isso em outro texto aqui no blog (http://filosofia.pro.br/jesus-nao-gostou-do-que-viu/). Demostrei – através do estudo do Jesus Histórico – como a grande sacada do homem nascido na aldeia de Nazaré foi ter pregado a lei do amor como mecanismo para efetivação da presença do Reino de Deus entre os seres humanos. O ocidente se formou nessas bases. Santo Agostinho, o mais importante dos filósofos e pensadores da Antiguidade Tardia, deu o tom da Igreja, mas também da vida ocidental.

Fomos formados pela junção da cultura greco-romana, e da cultura cristã. Nosso livros fundadores são a Ilíada, a Odísseia, e a Bíblia. Este último – ao menos no Novo Testamento – é o manual para a efetivação da lei do amor. Mas nos últimos dois mil anos essa talvez tenha sido a lei mais descumprida. Não cabe seguirmos a via do alemão Nietzsche, que disse ter sido Jesus o único cristão do mundo. Vamos por outro caminho. O caminho da compreensão de como essa lei do amor permeou toda a história ocidental, passando por eventos como o romantismo e a abolição da escravidão, até desaguar na criação dos Direitos Humanos.

È possível afirmar categoricamente, com toda convicção, que Jesus já era da turma dos Direitos Humanos muito antes destes serem criados. Diferente da confusão propagada neste momento pela burrice da direita, os Direitos Humanos nada tem a ver com “defesa de bandidos”. Não é isso. Qualquer um que tenha aprendido um pouco de história contemporânea sabe disso. Basta ter tido um bom professor, ter frequentado a escola, e levado as aulas a sério. Coisa que o povo da direita não fez e não faz. Mas eu explico para vocês.

Nem todos levaram a lei do amor a sério. Hobbes, por exemplo, disse que essa máxima de Jesus era conversa para boi dormir. Na verdade, o homem seria seu próprio predador. Em termos filosóficos hobbesianos, “o homem é o lobo do homem”. Em certo sentido, ele até que tinha razão. A fundação do Estado Moderno seria então o rearranjo das estruturas sociais que dosam nossa convivência entre semelhantes para que não nos autodestruíssemos. Dentro deste Estado o sociólogo alemão Max Weber viu no uso da força a ferramenta necessária para domar os lobos, e garantir a pacificidade da vida. Em termos sociológicos weberianos, “o Estado possui o monopólio do poder”.

Hobbes e Weber tinham razão. E nada melhor do que Adolf Hitler para comprovar isso. Não existe prova empírica mais convincente do que isso. Hitler não foi nenhum bandidos do estilo “favela carioca”. Ele não segurava fuzil, não assaltava nas “linhas coloridas”, muito menos derrubava helicóptero. Hitler foi além. Ele usou a estrutura do Estado alemão para massacrar mais de 6 milhões de judeus, gays, ciganos e deficientes. O Estado, aquele que na concepção de Hobbes deveria garantir a proteção ao cidadão, era justamente quem estava por eliminar parte dos cidadãos.

Os relatos da II Guerra Mundial são chocantes. O filme “A vida é bela” arranca lágrimas de qualquer um que tenha um pouco de amor no coração. Conheço várias pessoas que não conseguem assistir esse filme. Não são quatro policiais mortos na queda de um helicóptero. São mais de 6 milhões de pessoas mortas das formas mais cruéis possíveis, em câmaras de gás, após passarem por todo tipo de experiência imaginável. E é aí que entram os Direitos Humanos, pois as pessoas após a II Guerra Mundial perceberam que algo havia falhado.

Se sou roubado na rua, voou a delegacia e faço o B.O. Dessa forma, recorro ao Estado. Se percebo um sequestro, aciono o Polícia Militar. Mais uma vez, recorro ao Estado. Qualquer um de nós, incluindo os próprios policiais quando vítimas de bandidos, podem recorrer ao Estado. Mas eis que surge a questão: e quando é o Estado que age fora da lei, a quem devo recorrer? Não há ninguém que possa me salvar. Foi isso que aconteceu durante o Holocausto.

Quando o nazismo caiu – e bem no seu fim – e as notícias do Holocausto começaram a correr o mundo, as pessoas, incluindo os próprios alemães que não imaginavam o que estava ocorrendo em seu quintal, se questionavam do porque daquilo tudo, mas muito mais de como era possível que aquilo tivesse ocorrido na dita “sociedade civilizada” sem que nada tivesse posto um freio na máquina mortífera nazista. A conclusão era que o monopólio da força pelo estado, como disse Weber, não tinha um contrapeso. O Estado Moderno não possuía um mecanismo capaz de parar a si próprio quando excedia no uso da força. Dessa forma, surgiam os Direitos Humanos.

Ainda em choque pelos mais de 6 milhões de mortos, a criação dos Direitos Humanos foi um consenso. Era o mecanismo capaz de por um freio ao Estado. Não podíamos deixar que o horror do Holocausto voltasse a acontecer. Sabíamos de quão perigoso poderia ser o Estado, caso quisesse. Talvez se durante a segunda guerra já existisse a instituição dos Direitos Humanos, os judeus, gays, ciganos e deficientes poderiam ter recorrido a este e evitado parte do genocídio. Fica claro, mais transparente que água, o contexto e o sentido do surgimento dos Direitos Humanos.

Quem acha que é proteção de bandido, não entendeu nada. Quem reclama de que os Direitos Humanos não defendem os policiais mortos, entendeu menos ainda. Esses policiais – ou suas famílias – podem acionar o Estado e por ele serem atendidos. Mas quem é vítima do próprio Estado, não tem a quem recorrer, anão ser aos Direitos Humanos. Esse é o sentido, o do cumprimento da lei por parte do Estado. Quem defende os Direitos Humanos não quer anistia a bandido, quer apenas que o Estado siga seus protocolos padrões e cumpra com a lei. Dessa forma todo bandido merece o direito de defesa, doo julgamento, e do tratamento adequado nas prisões.

Só quem é muito novo ou não faz parte de minorias sabe o tamanho do poder que o Estado tem, e da sua capacidade de eliminar milhares de pessoas num estalar de dedos. Negros, gays, ciganos, judeus, deficientes, mulheres, moradores de favelas, e tantos outros sabem bem do perigo que é não haver um contrapeso na balança do poder. Num momento de avanço do nacionalismo em todo o mundo, os Direitos Humanos se fazem mais necessários do que nunca.

Espero que você tenha entendido o que escrevi. Espero que você tenha compreendido que caso seja vítima de qualquer bandido poderá recorrer ao Estado através das suas policiais e da justiça. Mas espero mais ainda que tenha entendido que se você for vítima do próprio Estado, não terá a quem recorrer, a não ser aos Direitos Humanos. Pense bem antes de vociferar contra eles. Pois, mais dia menos dia, todos nós precisaremos de uma proteção contra o Estado.

Licenciado em História pela UFRuralRJ e Especialista em Ensino de História pelo Colégio Federal Pedro II. Professor de História da rede pública no Rio de Janeiro. Pesquisa história antiga, especificamente Jesus Histórico, judaísmo, Judeia Romana e Cristianismo Primitivo.
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13 thoughts on “Jesus era da turma dos Direitos Humanos!

  1. Muito bom. Hugo, você acha que o Judaismo adquire uma soberania teocrática através dos espaços e das épocas e apresenta traços majoritariamente defensivos e separatistas?

    1. Eduardo, o único dos três monoteísmo que é universalista é o cristianismo. O judaísmo sempre foi a religião de um povo, o povo escolhido. Não é para todos. O termo “separatista” não cai bem, pois pode gerar confusão para quem não tem leitura no assunto. Não creio que os judeus sejam defensivos, prefiro pensar neles como pessoas no estilo “na minha”, ou seja, que ficam na sua sem incomodar. O cristianismo sim teve pretensões expansivas. Quando a soberania teocrática, ela parece ser muito mais do cristianismo, apesar deste ser considerado um dos “judaísmos”.

  2. Gostei muito do texto! Muito claro e objetivo, apesar da complexidade do tema. A sensação é que cada parágrafo, isoladamente, originaria outro texto. Imagino que você não escreveu mais por conta do formato, seria isso? (escrever em blog implica mais objetividade que o comum). Gostei mesmo! É terrível saber que as pessoas confundem os direitos humanos com qualquer coisa, a depender de seus interesses. Fazem isso porque não conhecem a importância e a origem de tais direitos, muito defendidos por Jesus.

    Não sei se cabe a questão, fique livre para responder, mas o que você pensa sobre os livros da Operação Cavalo de Troia?

    1. Rafaela, é isso mesmo. Cada parágrafo dá um novo texto. Escrevo para isso, para fomentar a criatividade e forçar a reflexão. Quando a pessoa chega junto feito você, podemos fazer uma investigação conjunta. O blog não permite textos acadêmicos. Tem que ser gostoso de ler, senão não atrai ninguém.

    2. Essa coleção “Operação Cavalo de Tróia” é um catatau de livros. Tem a parte religiosa, a parte histórica, e a parte ficcional. Em termos de literatura para atrair a juventude, é uma boa. Pode conquistar muita gente para o assunto. Agora, como você deve saber, em termos de academia não tem muito valor, apesar de possuir sim valor.

  3. Muito instrutivo e de boas absorção. Mas na conclusão não está claro de imediato o motivo de Jesus ser do Direitos Humanos, a partir da narrativa da segunda guerra. Mas é impertinência minha…

    1. Thiago, os Direitos Humanos são a exigência do cumprimento da lei, a eficiência da justiça. Justiça é o oposto de vingança, e Jesus pregou “dar a outra face”, e não se vingar.

  4. Correto Hugo, exceto pelo fato de que talvez os que exerçam o papel dos direitos humanos há çonga data, só se ocupem de reclamar os direitos humanos, no caso de quando o estado age ilegalmente contra bandidos, pq, ainda não vi em minha trajetória de vida, nenhuma vez, a sociedade organizada dos direitos humanos, lutando conta o Estado, nas inúmeras vezes em que o estado, massacra os cidadãos causando miséria e morte, nos hospitais, no saneamento basico, nos impostos absurdos, em fim, o Estado tem dizimado constantemente a população e os direitos humanos estão cegos ou cúmplices. Penso qie os direitos humanos precisam rever sua razão de ser.

    1. Marco Antonio o foco dos Direitos Humanos não são os serviços públicos, são apenas o uso da força policial e militar por parte do estado, como expus no texto. Mas talvez esse seu indicativo possa ser posto em questão como forma de ampliação da atuação dos Direitos Humanos.

  5. Marco António! Acho mesmo que Direitos Humanos, devam “perseguir” questões do direito humano universal, ou seja, se preocupar também e principalmente com os genocidios, provocados pelos diversos tipos de corrupção, desde o desvio de merenda escolar até a negação absoluta de suporte à vida, são certamente crimes hediondos negligenciados pelos “Direitos Humanos” aqui em nosso país!

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