Jesus não repudiava os ricos

Há um velho ditado que diz: “Quem conta um conto, aumenta um ponto”. Talvez esse ditado diga menos sobre a fofoca, e mais sobre as versões das narrativas que surgem ao longo do tempo sobre um determinado acontecimento.

Há uma passagem bíblica famosa sobre Jesus e os ricos, quando ele diz a um jovem rico que seria mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino do céu. Ora, todos nós sabemos que às vezes nem mesmo a linha entra no buraco da agulha, que dirá um camelo passar por esse minúsculo espaço. Jesus estaria dizendo claramente que os ricos não entrariam no reino do céu. Estaria, mas não estava. Eu explico por que.

O maior pecado de um historiador é o anacronismo. Este consiste em atribuir a uma época ou personagem ideias, sentimentos ou compreensões que pertencem à outra época. É isso que ocorre com a fala de Jesus.

Na Judéia Romana da época de Jesus, pessoas ricas não eram pessoas que possuíam muito dinheiro. Como mostrou o historiador francês Jacques Le Goff em sua obra “A Idade Média e o dinheiro: ensaio de antropologia histórica”, foi somente por volta dos séculos XII e XIII, em especial com o surgimento da ideia de pobreza como algo nobre, é que aparece a ideia de riqueza como acumulação de dinheiro – leia-se moedas.

Antes deste período, pessoas ricas eram aquelas que detinham poder, ou seja, riqueza não era sinônimo de dinheiro, mas sim de poder. Um homem rico era aquele poderoso, e nem todos os homens poderosos possuam muitas moedas – o dinheiro da época. Desta forma, quando Jesus diz que é mais fácil um camelo passar no fundo da agulha do que um rico entrar no reino dos céus, ele está dizendo que dificilmente as pessoas poderosas conquistarão a vida eterna por ele prometida.

Cumpre aqui destacar que Jesus foi um judeu marginal revolucionário que enfrentou os poderosos, mas não os ricos. O acontecimento no Templo de Jerusalém envolvendo os comerciantes foi muito mais uma reação a ocupação do Templo por terceiros, do que uma reação aos comerciantes, que, diga-se de passagem, nem eram ricos.

Ler atualmente na passagem bíblica o termo rico como sendo sinônimo de possuir dinheiro é praticamente um anacronismo. A riqueza à época era sinônimo de poder, e não de dinheiro. Jesus jamais repudiou os ricos, mas sim os poderosos.

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