Julieta, uma tragédia feminista

Pedro Almodóvar é conhecido pelos seus dramas com fortes personagens femininas. Seu cinema é repleto de cores fortes, grandes atuações e simbolismo marcante. Julieta, que teve sua estreia no Brasil em 7 de julho de 2016, não poderia ser diferente. A trama começa com a personagem principal sendo interpretada na sua versão mais velha pela Emma Suárez, mostra-se o desgaste da personagem que a muito perdeu o contato com a filha, por escolha desta, e sofreu com a solidão e a culpa. Ao acaso, Julieta Arcos esbarra numa amiga de infância da sua filha, acabando por despertar as dores que tentara esquecer em algum ponto, tentando fugir das próprias vivências.

O encontro é narrado pela personagem como um viciado que há muito não tem uma recaída, mas que quando a tem, depois de tanto tempo, é fatal. Ao meu ver esse é o ponto de todo o filme, o fatalismo que decorre de um encontro a quem já não tem mais forças próprias funciona como o último suspiro na busca de salvar a relação mãe e filha. Levada pelo “vício”, mais uma vez Julieta tenta encontrar sua filha, Antía. O final “mais ou menos feliz”, entretanto, não esconde as características trágicas que Almodóvar brilhantemente põem no contexto moderno.

O suspiro da personagem é expresso na forma de carta: Julieta escreve tudo que viveu endereçando a sua filha, e deixa o espectador a par da situação. Começamos com a Julieta jovem, interpretada pela Adriana Ugarte; professora de filologia clássica com educação liberal. Ao passar por um momento significativo, e depois por outro mais marcante, vive uma culpa por circunstâncias do acaso, mas que a impregna apenas pelo fato de ser mulher na nossa dada cultura. Os pormenores que fomentam uma discussão feminista aqui não são tão importantes, antes disso vemos os traços trágicos no desenvolvimento da trama.

As diferenças de época entre as tragédias gregas e o filme parecem dificultar a relação, mas algumas características do roteiro parecem dar dicas. A começar pela profissão de Julieta: professar filologia clássica seria uma forma de pôr o contexto trágico na narrativa, de fato há uma cena em que Julieta dá aula e toca em temas centrais abordados no filme a partir de Ulisses. Outro ponto seria o abuso do acaso nas conexões entre as personagens, como se tudo já estivesse predestinado e qualquer pretensão a encontrar causa dos encontros seriam meros pretextos. Ainda uma outra dica do roteiro seria a repetição de acontecimentos simbólicos, como um lembrete do destino e da volta do sofrimento.

Porém, ao adaptar o herói de uma tragédia grega ao contexto moderno é preciso de algumas inversões: ao invés do orgulho, a culpa, ao invés da ordem divina/cósmica, a ordem moral/religiosa, ao invés do paganismo, o cristianismo. Ainda assim, não poderia faltar um ponto central da tragédia que é a falta de liberdade, explicitada na fala do profeta. No filme há a profecia da personagem Marian, interpretada pela Rossy de Palma, numa cena demasiadamente sinistra para os filmes que geralmente são classificados no gênero drama. Esta personagem vive em seu tempo, professa a ordem moral e religiosa: caso Julieta não abandone a profissão para cuidar da família, esta vai se desfazer e a culpa recairá sobre Julieta. A heroína de Almodóvar, obviamente, opta por continuar na profissão e ainda sai de casa brigada com o cônjuge por ter sido traída. A traição não é coincidência, mulher que não segue sua profissão, a saber cuidar da família, deixaria o homem exposto, num igual fatalismo, ao adultério e a desgraça da família.

Basta Julieta sair de casa para a tragédia se consumar, nas cenas seguintes o pai de sua filha sai em direção ao mar durante a tempestade, morre e a culpa recai sobre Julieta. Destituída de toda liberdade das próprias forças, Julieta entra em um estado profundo de depressão. O mesmo quadro acontece em um ciclo vicioso e até em narrativas secundárias. A mulher está condenada a culpa e ao sofrimento pelos seus pecados.

Penso que não poderia ser diferente tal reconstituição da tragédia em uma relação tão forte com o cristianismo nos dias de hoje, pelo menos não nas mãos de Pedro Almodóvar. O fatalismo e o sofrimento são mais sutis, e especialmente por isso sua origem é mais desconhecida. Ao final a filha de Julieta acaba por sofrer de forma similar a mãe, o que une as duas, mas que não garante que o sofrimento e o sentimento de culpa cessem.

Estudante de graduação em Filosofia na UFPB e membro do CEFA.
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2 thoughts on “Julieta, uma tragédia feminista

  1. O filme é inspirado em contos da canadense de Alice Munro. Não conheço para saber se é trágico. Agora, a tragédia é um gênero que se faz por conta de não haver saída ao final. Por qualquer caminho que se pegue, o fim está determinado. Ora, é assim o filme de Almodóvar? Não me pareceu.

    1. Me parece que sim. Porque não vejo Julieta conseguindo esquecer da filha, sem que qualquer lembrança surgindo ao acaso a fizesse “regredir” e tentar buscar pela Antía. Do mesmo modo não vejo Antía conseguindo “fugir” de seus sentimentos, o sofrimento sempre voltaria, o que a faria buscar pela mãe, e a morte de seu filho serve esse propósito. Além do simbolismo em que se vê o início e o fechamento da tragédia, pois tanto Xoan quanto o filha de Antía morrem afogados. Em suma não há fuga da culpa que a filha desperta na mãe e a mãe desperta na filha, no final elas têm de lidar com os sentimentos que despertam uma na outra.

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