Justiça e felicidade

Quando o homem se vê como um ser bem delimitado e separado dos outros seres, um indivíduo, e se sente profundamente sozinho, vivendo em busca de relacionamentos, passa a dizer que é possível não responder às leis ou escapar de algo como um “ideal social” de felicidade. Estas duas coisas são tomadas como incômodas cobranças.

Após ser condenado a tomar cicuta, esperando sua execução na prisão, Sócrates recebe a visita de Críton. Críton diz para Sócrates aceitar que ele suborne os guardas, para que eles deixem escapar o filósofo. Sócrates espera imperturbável a própria punição. Críton reconhece isso, mas diz que aqueles que mais sofrerão com a posição do filósofo serão os amigos, como ele próprio, pois serão vistos pela multidão como pessoas que poderiam ter feito alguma coisa para impedir a morte do grande Sócrates, e nada fizeram.

Críton diz que se sentiria envergonhado com essa avaliação da multidão, assim como também se sentia envergonhado por Sócrates deixar seus próprios filhos sem um pai. A este ponto Sócrates responde que, caso fugisse, não poderia livrar os filhos de serem vistos como filhos de um fugitivo. Sem o pai, eles seriam bem criados até pelos amigos dele. A cidade continuaria os acolhendo.

Ao primeiro ponto dito por Criton, Sócrates responde que não se deve confiar na razoabilidade do julgamento da multidão: quando se deseja desenvolver a virtude de uma certa parte do corpo, chama-se a opinião de um especialista. Quando se deseja desenvolver as virtudes da alma, como a justiça, não é a voz de qualquer um ou de todos que deve ser levada em consideração. Os conhecedores das virtudes da alma é que podem julgar as virtudes das almas dos seres humanos, e é diante deles, e não da multidão, que o não-virtuoso deve sentir vergonha.

Críton diz que sentirá vergonha da opinião dos muitos, por ser visto como um mau amigo. Mas se ele é um bom amigo ou não, não há como a multidão saber. Então, o temor de Críton é o de ser visto como alguém que não abre mão do próprio dinheiro, nem por um amigo. De todo modo, é o que lhe dizem ser o certo a se fazer, ou o que lhe parece estar sendo sugerido pelos outros, que lhe causa drama.

A Criton parece preocupar uma “lei social dos amigos”, ou uma “lei social do dinheiro”, ou ambas juntas. Da mesma maneira se dá a nossa conversa sobre a felicidade: ocupações, possessões, papéis e até estados de espírito são vistos como coisas que pressionam, como se de repente acordássemos de um sono produzido pelo mercado e começassemos a dizer que aquelas coisas nos são externas, que estão sendo impostas para nós e de que delas devemos fugir. Ou de que temos uma necessidade instrínseca que nos faz buscá-las, e de que é dessa auto-armadilha que devemos tratar.

Os homens vêem a lei ou certas “sugestões para a felicidade” como traições à própria individualidade. O bem, o mal e a punição são todos contrários a quem de fato se é. Então o homem só é livre se não obedecer à lei. E só é feliz elegendo um ideal de felicidade que pareça “intrínsecamente” seu.

A forma como Sócrates então confrontará Críton é confrontar a si próprio. Ele o faz falando a voz das Leis de Atenas. O que elas diriam a Sócrates, caso ele fugisse à prisão? As Leis falam sobre a vida de Sócrates, transcorrida inteiramente na cidade onde elas vigoram. Por decisão própria, ele sempre viveu em Atenas. E sempre viver em Atenas significa ter aceito as leis desta cidade, pois se elas não fossem do agrado dele, ele poderia ter se mudado.

O “conhece-te a ti mesmo” socrático não é um conhecimento de algo como uma “interioridade”, mas é de um si mesmo enquanto posição a ser ocupada na pólis, um destino ao qual o homem precisa estar de acordo. Fugir da prisão seria ser injusto com relação às leis da cidade, destruir este aspecto importantíssimo de quem se é. É diante disto que Sócrates poderia sentir vergonha, pois teria sido injusto, para com as leis, neste caso. Esta é uma falta na alma.

Sócrates estava com a idade avançada. E passou a vida observando as virtudes da alma dos homens. Trair as leis faria com que ele traísse a si mesmo, nestas exatas características. Implicaria uma perda das próprias feições. Ele não reconheceria a si mesmo, e percebe isso quando as Leis dizem que não mais o reconheceriam.

O que poderia ser mais infeliz do que não mais se reconhecer? Sócrates reconhece a si mesmo, se avalia, a partir de um parâmetro da cidade, mas que também é dele: a justiça.

Como confrontamos a nós mesmos? Talvez, como Críton, sintamos o peso dos olhos da multidão. E esses olhos também são os nossos para nós mesmos. Recebemos dos outros imagens simplificadas de nós mesmos, e é com elas que nos vemos. Não encontramos parâmetros outros para nos vermos, pois as leis, as ideologias, as narrativas, nada disso tem mais peso.

O que vemos como propriamente nosso é uma história critiana, de se sentir pressionado pelos outros e de tentar fugir dessa pressão. Erguemos em nossos discursos, principalmente se forem teóricos, um mundo contra o qual nos colocamos em luta ou em fuga. A preocupação com a felicidade é ensaiada como a história dos “ideais sociais de felicidade”. A preocupação com as leis é ensaiada como a história da pressão das leis e das inevitáveis transgressões a elas. A preocupação com a identidade é ensaiada como a história dos ataques que ela sofre.

Nisto tudo, há uma cola entre eu e mundo, e tentativas de fuga. Mas o homem que quer ficar sozinho é o mesmo que sente solidão. O mundo ou é puro exterior, ou é mundo interno solipsista. Havendo a cola, no entanto, esses dois mundos se confundem. É dos outros que o homem recebe as imagens que usará para avaliar a si mesmo. São imagens simplificadas, tomadas sem a mediação de qualquer virtude ou valor.

Leis, ideais, valores e virtudes deveriam ser mediadores entre o homem e o mundo, e entre ele e si mesmo. Não deveriam ser coisas das quais tentamos fugir, ou que abraçamos sem nos auto-avaliarmos. Esta mediação é de confronto, de avaliação do que se está fazendo. Ela vigora quando a relação entre aquelas instâncias é bem próxima e profunda. E ela restabelece o nexo entre justiça e felicidade.

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2 thoughts on “Justiça e felicidade

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