Leitura do Discurso sobre o Método (Primeira Parte)

Muitas pessoas falam mal de “racionalismo cartesiano”, ou de “cartesianismo”. Não abordarei estas coisas. O que farei aqui é uma leitura do Discurso sobre o Método. Pretendo livrar-me dos preconceitos que há em torno de Descartes, e também saber do seu valor a partir do próprio texto. Descartes fala sobre si mesmo, mas não como uma outra pessoa falaria, apresentando dados e fatos biográficos. Ele procura expor e justificar suas próprias razões. Segundo conta, ele alcançou bons resultados na busca da verdade.

Sim, Descartes diz que o bom senso ou a razão é a coisa mais bem distribuída do mundo. Essa é uma frase popularizada. Mas ele também diz que não basta ter a mente sã, ou seja, ser dotado da razão: é preciso aplicá-la bem. E o diz com certo riso. Ostentar tal qualidade é o mínimo para ser homem e não animal. Ele reconhece em si a mesma razão que há em qualquer um. Mas esse aparato, sem que se saiba usá-lo, não leva a nenhum conhecimento acima do médio.

Descartes anuncia o desenvolvimento de um método que lhe permite aumentar gradativamente seu conhecimento, a fim de elevar-se inclusive dos seus fatores formativos particulares. Aos leitores que ele espera ter, diz que seu método não é para ser seguido. O que oferece é a fábula de um homem que resolveu adotar um certo procedimento para guiar a própria razão. Ele espera ser útil.

Após anos de estudo, Descartes não viu cumprir-se a promessa que lhe fizeram, de que ele teria um conhecimento claro e seguro do que é útil à vida. Descobriu, foi sim, a própria ignorância, e ela foi sentida como um embaraço, uma gravidez pesada. As línguas, as fábulas, o conhecimento dos grandes homens da história e dos costumes, os bons escritores, a eloquencia, a poesia, as matemáticas, a teologia e a filosofia trouxeram-lhe ganhos, mas talvez ganhos circunscritos demais.

Leituras de livros antigos e contatos com habitantes de terras estrangeiras são viagens que se faz para outros tempos e espaços. Elas mostram que não são apenas os próprio hábitos que têm razão. Mas o lado ruim de se dar ouvidos a esses outros é acreditar que as coisas da vida devem ser sempre extravagantes, pois é deles que se ocupam os relatos que se ouve. Sendo assim, eles tornam o indivíduo ignorante do que se faz no seu presente.

Descartes buscou ser contemporâneo, olhar o chão em que pisava. Os diferentes saberes pareciam querer demovê-lo disso: a poesia parecia dom da mente e não do estudo, como se houvesse um outro lugar de onde proviessem as aptidões; as matemáticas, apesar de apreciadas pela exatidão, não revelavam sua verdadeira utilidade; os escritos dos antigos pagãos, que elevavam as virtudes, eram belos castelos, mas não davam a conhecer aquelas virtudes, é isso fragilizava as construções; a teologia é generosa igualmente com o ignorante e o douto, e aprendê-la é coisa para alguém que seja mais do que homem; a disputa em torno de filosofia desacreditava que uma delas fosse verdadeira, enquanto as outras é que fossem meramente opiniões. Casa uma dessas críticas mostra uma atitude de aoroximar-se do homem que vive em algum lugar, e que precisa de razões para sua vida.

Após estudos e viagens, Descartes disse encontrar em si mesmo, nos raciocínios que fez, as verdades sobre os assuntos que lhe interessavam. A importância de ter conhecido a diversidade de costumes e de opiniões foi a de depois ter delas se libertado, para novamente poder ouvir sua razão, não tê-la ofuscada nossa lucidez natural.

Referência: René Descartes. Discurso sobre o Método. Edipro. Bauru, SP. 2006.

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