Leitura do Discurso sobre o Método (Terceira parte)

Descartes estava pronto para derrubar a sua casa para reconstruí-la mais sólida. Mas onde ele ficaria alojado durante o tempo de reconstrução? Ele foi se alojar na religião do Deus que lhe concedeu formação, e também nas razões das pessoas sensatas com quem ele mesmo conviveu.

Na construção do seu método ele empregaria toda a sua razão, de tal modo que o restante das suas ações ficariam desguarnecidas de bom senso. Para evitar isso, ele abrigou-se sob o teto de quatro máximas, formando uma moral provisória. Há pessoas que tomam máximas como moral permanente. Não é o caso do filósofo.

A primeira máxima era obedecer às leis e aos costumes do país, manter a religião em que Deus lhe deu a graça de ter sido instruído e orientar-se pelas opiniões moderadas dos mais sensatos.A fim de saber que opiniões eram essas, Descartes tomou como parâmetro o que os sensatos faziam, e não o que eles diziam. Poucos são os que dizem o que pensam. Muitos chegam mesmo a ignorar o que pensam. Crer em algo, ter uma ideia, é diferente de saber que esse algo é criado, que a ideia precisa se pensar.

A escolha das opiniões que formariam a moral provisória privilegiava a moderação delas. As opiniões moderadas provavelmente são as melhores. Elas são as mais cômodas de serem praticadas. Opiniões extremas sempre são perniciosas, pois quanto menos você se desvia do caminho da moderação, menores são as chances de errar. Os excessos são desvios bruscos. Escolher uma opinião extrema não nos livra da suspeita de que talvez a outra opinião extrema fosse a correta.

Entre as opiniões extremas, Descartes inclui o compromisso de sempre tomar como boa alguma coisa determinada. No mundo não há nada que fique sempre no mesmo estado. Não há garantia de que algo considerado bom hoje possa ser considerado bom amanhã. Nada, por não ter estabilidade, pode salvaguardar a razão que uma vez a julgou.

A segunda máxima tomada por Descartes era firmar-se na opinião que porventura tenha escolhido, mesmo ela parecendo duvidosa. A razão disto imita à das pessoas que, por estarem perdidas numa floresta, não ficam paradas e se movem em linha reta para um lado escolhido, jamais se desviando dele. Mesmo que cheguem em um lugar diferente do que imaginavam, estarão melhores do que no meio da floresta. Na vida, quando há a necessidade de se agir, e faltam opiniões verdadeiras, deve-se seguir as opiniões mais prováveis. Na falta de opiniões prováveis, a certeza da opinião que se tem para escolher pode ser dada pela própria razão que a escolheu.

O mundo tem uma ordem própria, estranha aos desejos de alguém. A terceira máxima da moral provisória é perceber “que não há nada que esteja tanto em nosso poder como os nossos pensamentos”. Então deve-se satisfazer com o que está dentro dos limites do que dá para alcançar. O natural da vontade é desejar aquilo que considera possível. Não devem causar desgosto os bens que estão afastados, mesmo que se considere que o justo é tê-los.

A necessidade é uma oportunidade para ser virtuoso. Descartes admite que esta forma de ver as coisas requer um longo exercício ou meditação. Os filósofos antigos, apesar do sofrimento e da pobreza, disputam a felicidade com os deuses. Os limites impostos pela natureza fazem crer que além dos pensamentos não há nada que seja possível ao homem. O filósofo, por dispor plenamente do seu pensamento, considera-se mais rico, poderoso, livre e feliz do que o homem sem filosofia. O rico e o poderoso não possui realmente a riqueza e o poder que pensa ter, pois, pela roda da fortuna, essas coisas escapam.

Não há melhor atividade para o homem do que cultivar a sua razão. Os homens fazem muitas coisas, mas Descartes, ao começar a usar o seu método e a descobrir algumas verdades importantes e ignoradas pelos outros, percebeu que a sua ocupação era a que mais satisfazia o seu espírito. E essa percepção ocorreu não com a investigação do que os homens fazem, mas do que ele próprio, Descartes, sentia em seu espírito.

Moderação nas opiniões, ou seja, evitar opiniões extremas; resolução nas opiniões, ou seja, confiar na própria escolha, qualquer que ela seja, mantendo-se firme e sem desvios; e vencer a si mesmo, ou seja, reconhecer que a fortuna independe dos desejos do homem, e que para ele o melhor é confiar no próprio pensamento, para ter acesso a bens: tais são as três máximas da moral provisória de Descartes.

Ele deveria seguir seu próprio critério para chegar às suas opiniões, e não seguir as opiniões dos outros. Deus deu a cada um luzes para discernir o verdadeiro do falso. O desejo por obter a verdade só se satisfaria após adquirir todos os conhecimentos de que era capaz, pela luz. O conhecimento para discernir a verdade e para julgar o bom e o mau levam ao bem fazer. As virtudes ocorrem juntas, e aí se conquista os bens possíveis.

Ao homem foi dada a capacidade de bem pensar, bem julgar e bem agir, de modo a obter as coisas que ele deseja. No entanto, ele não costuma utilizar bem a sua capacidade, e segue as opiniões dos outros, frequentemente troca de opiniões e mostra não saber discernir o verdadeiro e o que deve fazer. Ele coloca em primeiro lugar os bens que obtém por fatores externos à sua própria capacidade, como as honrarias e heranças. Não se dá conta que a sorte muda, e os bens então são perdidos. O homem tem uma certa capacidade e possibilidade de ter as coisas, mas as desperdiça.

Com essas máximas e as verdades da fé, estas em primeiro lugar, Descartes ficou à vontade para desfazer-se por completo das outras opiniões. Ele foi viajar pelo mundo, para ser expectador das comédias. Sobre cada matéria, em sua parte incerta, ele meditou, evitando que sua mente abrigasse impressões erradas.

Descartes não se considerava um cético, pois estes nunca decidirem por opinião nenhuma. Ele pegava opiniões, mas de forma provisória, como um caminho para outras opiniões, mais confiáveis. Seu propósito era o de afastar tudo aquilo que parecia sólido, mas que é movediço feito areia, de modo a descobrir, encontrar a rocha por debaixo. Com raciocínios claros e seguros, o exame das proposições, mesmo das mais duvidosas, encontrou algo bastante certo: aquelas conclusões nada possuíam de certo, e podiam então ser postas de lado. Não se trata, aqui, de evitar o enganoso, mas de abraçá-lo temporariamente,examiná-lo para, então, saber que realmente se trata de um erro. Para que evitemos nos enganar, não podemos fugir do erro.

A experiência de destruição de opiniões mal fundadas resultava em proveito para futuras opiniões mais certas. Durante nove anos assim viveu Descartes, tranquilamente. Sua ocupação era o honesto divertimento de separar os prazeres dos vícios. Além de não deixá-lo se enjoar do ócio, seu método pagava-lhe com conhecimentos da verdade.

Após esse tempo, Descartes julgava não ter motivos para entrar nas discussões dos filósofos, nada a contribuir para os fundamentos da disciplina deles. Chamaram-no para discursos, e o que ele mostrava não era um comentário do que os filósofos diziam, mas a confissão do que ele mesmo ignorava. Sua confissão era ingênua, na essência, negando mais do que afirmando, diferindo, portanto, dos que estudaram um pouco e se vangloriam de suas doutrinas.

Descartes reconhecia o sossego em que se encontrava. A população local não se metia na sua vida. E ele gozava de conforto material.

 

Referencia

René Descartes. Discurso sobre o Método. Edipro. Bauru, 2006.

 

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