Linguagem e conhecimento

O Homo Sapiens, ou seja, o homem que sabe, destoa dos animais justamente por esse fato, pelo saber, ou melhor, pelo poder saber. Complementando com Aristóteles, só há conhecimento do universal e não do particular. E o homem é o único que tem contato com o universal, ou seja, as ideias, pela linguagem. Justifica-se, portanto, o velho pensamento de que os homens possuem o saber e os animais, os instintos. Aqui, investigaremos, a partir de Agamben, sobre a nossa existência como Homo Sapiens.

No livro “O que é a Filosofia?”, Agamben declara que “o homem não é apenas homo sapiens, mas primeiro e acima de tudo homo sapiens loquendi”. Agamben quer dizer que o homem não é apenas o ser que possui conhecimento, mas também aquele que, antes de tudo, possui o conhecimento da linguagem. Agamben completa “o ser vivo (homem) que não fala simplesmente, mas sabe como falar”. Diversas são as implicações que saem da posição de Agamben. Primeiro, a linguagem é aprendida pelo homem. Isso significa que o homem não é um animal que possui a linguagem dentro de si, como algo que a natureza lhe deu, e, sim, que ele a aprende de fora dele. Ademais, o homem além de falar, sabe como falar, ou seja, conhece as regras de uso da linguagem. Isto é bem verdade, pois em algum momento da história humana, nós começamos a elaborar nossas práticas de transmissão da linguagem, para aqueles que ainda não a possuem, de modo que também o homem é aquele que sabe transmitir a linguagem, pois este, além de tudo, a conhece. É como se a linguagem fosse um “aparato técnico”, e nós a conhecêssemos bem, tão bem que podemos apresentá-la para outros que ainda não a conhecem, para que estes, também, a incorporem dentro de si.

Além disso, e é aí que está a sagacidade do filósofo, Agamben continua “o conhecimento da linguagem – mesmo em sua forma mais elementar – deve necessariamente preceder qualquer outro conhecimento.”. Isso significa que para o homem poder conhecer qualquer coisa que seja, antes disso, este precisa conhecer a linguagem, incorporá-la em si mesmo, para a linguagem virar nossos olhos. Como pensamos antes, junto com Aristóteles, segundo o estagirita, o conhecimento é conhecimento do universal. E, indo além de Aristóteles, o universal, a ideia abstrata, só é adquirido pela linguagem. Pois antes da linguagem, só tínhamos casos particulares e concretos de entes como cachorros, lobos e seres humanos, por exemplo. Mas com a linguagem temos a ideia universal e abstrata do cachorro, do lobo e do ser humano. Ou seja, a linguagem unifica a multiplicidade da experiência. E se levarmos Platão em consideração, também será possível concluir a mesma coisa, que o conhecimento da linguagem precede qualquer conhecimento possível. Para Platão o conhecimento é definido como uma crença verdadeira justificada. Irei destrinchar esta sentença. Uma crença é um estado psicológico de um indivíduo. Para uma crença ser verdadeira, isto depende do seguinte fato: se aquilo que ela afirma se encontra no arranjo do “mundo”, no sentido mais vago possível. Mas é na justificação que vemos o papel da linguagem para que nasça o conhecimento. Pois a justificação é uma conversa que parte de um para um outro, mesmo que este outro seja o si mesmo, pois conversamos com nós mesmos e, também, justificamos algo para nós mesmos.

A linguagem inaugura o campo do humano. Agora, a observação que abre o primeiro texto do livro “O que é a Filosofia?”, o Experimentum Vocis, fica clara. Agamben chama a atenção ao seguinte fato: em nenhuma civilização, por mais animalesca e bárbara que seja, ninguém sequer tentou renunciar a linguagem. E nem nos mais cruéis momentos da história, como nos campos de concentração nazistas, ninguém nunca sequer pensou em extinguir a linguagem de alguém. Isso se deu pelo fato de que extrair a linguagem do homem significa extrair sua própria natureza. É a morte do homem em vida, similar a tentar retirar a essência de uma árvore sem destruí-la, retirar dela o que a define como árvore sem a sua aniquilação. Linguagem e humanidade estão tão entrelaçadas que é impossível remover a primeira sem destruir a segunda.

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