Maconha, convicção e outras drogas

Recentemente, deparei-me com uma pergunta, feita por um estudante veterano de filosofia de uma universidade federal, com o seguinte teor: “você fuma maconha?”. Quando disse “não”, veio uma frase estranha: “você é filósofo e não fuma?!”

O meu “não” tem sim algo de formação acadêmica. Pois, lembro-me de meu professor Luiz dizer “quando quero ‘viajar’ leio Kant”. Esta frase marcou-me! A partir de então, coloquei também no rol de competência do filósofo alterar o conteúdo do seu pensamento. Não se trata de uma caretice qualquer, mas uma caretice profissional. Se estou atormentado, sei que isto pode ser fruto do pensamento; já que pensar para Camus “é viver atormentado”. Se estou tranquilo, isto também pode ser fruto de uma racionalidade das circunstâncias atuais.

Entretanto, posso dizer “sim” para a ingestão de psicotrópicos. Ora,  se diagnosticado a necessidade médica e, portanto, a melhora de minha saúde mental; sendo assim, não há motivos para não fazê-lo! O filósofo não tem poder de cura! O pensamento não substituí determinações biológicas! Quem diz o contrário está fazendo autoajuda tola (redundância!) ou está no auto-engano.

Para o  caso acima, temos dois exemplos atuais. O primeiro veio de Steve Jobs que recusou tratamento médico e morreu de câncer (caso fosse tratado antes, haveria a possibilidade de controle da doença). O outro caso, mais dramático, trata-se do pai que recusou a tratar sua filha por acreditar em tratamentos apenas homeopáticos ¹.  A filha, com uma doença alérgica chamada eczema infantil, teve feridas abertas pela coceiras provocada pela doença, ficando exposta à infecções e morrendo em seguida de septicemia.  Mesmo diante da filha coberta de feridas, o pai recusou outro tipo de tratamento que não fosse a homeopatia.

Em ambos os casos temos uma fixação dogmática que extrapola a própria capacidade dos indivíduos. Como se Jobs não soubesse a seriedade de um câncer; e o homeopata  ignorasse as limitações da homeopatia (e talvez a morte de sua filha venha justamente da incompetência de seus conhecimentos em aspecto negativo da homeopatia).  Mas o evidente é que existe algo de irracional em ambas as atitudes.

Assim também há irracionalidade em quem espera que a maconha “altere a consciência”. Quando, no máximo, ela trará problemas futuros de memória. Todavia, quando tatra-se de um filósofo o engano é duplo! Pois, espera um efeito da maconha que esta não possuí e espera de si competência que não tem. E, em um ato desesperado, espera que a droga ocupe o lugar  que sua atitude de filósofo deveria ter. Logo, espera da droga o que ela não dá e de si o que ele não é.

  1. Este caso foi tratado pelo Calligaris em um artigo na Folha (8.10.2009). Mas também é encontrado no livro todos os reis estão nus, com o título Razão, crença e dúvida (p. 103), lançado pela editora Três Estrelas.
Professor de filosofia e membro do CEFA.
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