Maluf nos conta uma história primitiva: as sociedades funerárias!

Paulo Maluf, ou simplesmente Maluf, tem história. História na política brasileira. Para alguns, mais do que um político, ele se tornou um líder. Mas líder de que? Digite na caixa de pesquisa do site Google o nome “Paulo Maluf” e verás que o homem de 86 anos tem mais notícias relacionadas à justiça que qualquer grande criminosos brasileiro. Ao longo de sua carreira política, que começou lá nos meandros da Ditadura Milita no partido governista ARENA, Maluf foi desde Deputado, Prefeito, até Governador. Colecionou nesse período um rol de denúncias e acusações de corrupção e desvio de dinheiro. Mas sua liderança no meio político não se deu devido aos seus roubos – coisa natural para a classe política brasileira – mas sim pela facilidade com que escapou da justiça durante décadas. Maluf foi mais escorregadio que caroço de jaca, mas seu dia de acertar as constas com a justiça finalmente chegou.

Aos 86 anos Paulo Maluf finalmente foi preso por ordem da Suprema Corte para cumprir a pena pela condenação por corrupção e desvio de recursos públicos quando era prefeito da Cidade de São Paulo. Daí em diante, a defesa do preso começou uma peregrinação aos tribunais com pedidos atrás de pedidos tentando obter sua liberdade. Qual o argumento? Maluf estaria velho demais para ficar preso, e poderia morrer na prisão devido aos seus problemas de saúde.

A princípio o senso comum nos leva a pensar que a estratégia de Maluf é a mesma que ele utilizou ao longo dos anos para se safar da justiça: postergar ao máximo possível o processo impetrando recursos em cima de recursos, e fazendo-se valer das brechas deixadas pela lei. Porém, essa resposta pode ser suficiente para o senso comum, mas para os intelectuais não é. Não sacia a fome e a vontade de contestar, de enfrentar, de colocar novas cartas nesse jogo. Talvez Maluf possa estar realmente com medo de morrer na cadeia, pois, afinal, depois da morte não temos mais controle sobre nosso rumo. Sequer sabemos o que acontecerá após darmos o último suspiro.

A preocupação com a morte não é nova. Maluf não é o primeiro a temer morrer sem os devidos encaminhamentos para seu corpo. A antiguidade presenciou o surgimento de inúmeras sociedades funerárias[1]. Morrer e ser abandonado em seguida, sem o devido sepultamento, era algo terrível para várias civilizações. Ora bolas, na idade de Maluf, e conhecendo o sistema penitenciário brasileiro como conhecemos, realmente sua preocupação tem algum fundamento. Todos os dias dezenas de pessoas morrem dentro dos nossos presídios e são depositadas em valões ou covas rasas lá mesmo. Duvida? Faça uma escavação dentro de um presídio. O resultado será semelhante ao obtido em escavações no entorno de conventos: ossadas e mais ossadas!

As sociedades funerárias da antiguidade não são bem aquilo que conhecemos hoje na sociedade de mercado, ou seja, pagar a uma empresa para que ela proceda ao seu sepultamento após a morte. Essas sociedades eram verdadeiras irmandades, onde o laço do sepultamento unia famílias que bebiam, comiam, e conviviam juntas, participando de banquetes e festas. Além disso, algumas dessas sociedades possuíam estatutos com normas de convivência e regras de ingresso. Uma dessas sociedades, fundada no séc. I d. C., teve seus estatutos descobertos em 1816 durante uma escavação na Cidade de Roma. Essa sociedade tinha autorização de funcionamento concedida pelo Senado Romano, o que demonstra o tamanho de sua importância política e da sua relevância social.

Com caráter democrático, essa sociedade funerária se reunia mensalmente em assembléias para deliberar sobre suas normas. Para ingressar na sociedade era necessário contribuir financeiramente, contudo, era permitido que tanto escravos, quanto libertos e homens livres fossem sócios dessa sociedade. A preocupação com o destino do cadáver no pós-morte era tão grande que barreiras sociais caíam por terra nesse momento. A antiguidade deu mais valor aos defuntos do que as sociedades modernas dão atualmente. Maluf tem razão em se preocupar com sua morte na cadeia, afinal, devido a sua fama, creio que a recepção de seu corpo não será a das melhores!

[1] CROSSAN, John Dominic. A Tradição da Refeição Comum. In: O nascimento do Cristianismo: o que aconteceu nos anos que se seguiram à execução de Jesus. São Paulo: Paulinas, 2004.

Licenciado em História pela UFRuralRJ e Especialista em Ensino de História pelo Colégio Federal Pedro II. Professor de História da rede pública no Rio de Janeiro. Pesquisa história antiga, especificamente Jesus Histórico, judaísmo, Judeia Romana e Cristianismo Primitivo.

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