Marielle: eu bom

Este texto é para tentar entender o que significam as manifestações a respeito do assassinato de Marielle.

Marielle era vereadora da cidade do Rio de Janeiro. Foi assassinada no dia 14 de março. No dia 15, muitas falas circularam na internet, lamentando o fato. Também houve manifestações nas ruas de diferentes cidades do país.

Uma fala que li muito, no dia 15, foi “Marielle presente”. O indivíduo Marielle não estava presente. O que é que poderia estar presente, então?

A sentença é proferida por alguém, que de fato está presente. Marielle é feita estar presente, quando alguém fala de Marielle? Suponhamos que sim. Vejamos o que ocorre.

Lembro-me, neste momento, de outra sentença que muito ouço atualmente: “fulano me representa”. As ações de fulano me representam, apresentam-me novamente. Mas o que apresentei antes de ser re-apresentado por fulano? Nada. É como se eu fosse um texto de peça de teatro em branco, e um ator viesse e me representasse. O que eu nem cheguei a formular já está na boca de fulano.

A presença de Marielle ocorre nas manifestações de hoje. Muita gente fala e presentifica Marielle. Representa-a ou apresenta-a? O que se sabe de Marielle? O que se sabe dela é algo que tem início no seu assassinato, e dele recua um pouco. Era vereadora da cidade. Atuava contra o crime organizado. Recentemente, falou publicamente sobre o que considerou truculência da polícia na favela de Acari. Neste ponto, voltamos a nos aproximar da cena do crime.

Na cena, é indiscutível a aparência de execução. Muitos tiros na cabeça. Na cabeça de uma mulher. Uma mulher negra. Agora a visão novamente se afasta da cena. Marielle é oriunda de favela. É socióloga. Foi a quinta vereadora mais votada da cidade. Até então, na Assembléia, apresentou projetos de lei para o benefício da população mais pobre e algumas minorias. Há cerca de um mês, Marielle passou a integrar uma comissão de acompanhamento das ações militares nas favelas cariocas. Supõe-se que Marielle foi assassinada por gente contrária a este aspecto da sua atuação.

Essas informações foram colhidas nas diversas reportagens sobre Marielle. A organização que eu dei aqui, lógico, é hipotética, mas não implausível. Uma pessoa pode ter feito esse percurso, com relação a Marielle.

Um percurso, sem dúvida, cativante: ser mulher, negra e oriunda de favela reduzem drasticamente as chances de sucesso, na vida; formar-se e eleger-se a um cargo público, para uma pessoa naquelas condições iniciais, demonstra força; a atuação em prol dos mais fracos mostra que esta força é bravura; discernir o que deve ser um serviço de segurança pública e o que é desrespeito e violência é buscar a justiça, o que qualifica a bravura; ser morta pelo inimigo não totalmente visível e conhecido, mas certamente mortal e injusto dá a Marielle todo o contorno de heroína trágica.

Sem dúvida estou sendo taxativo, ao inserir estes adjetivos. Mas como negá-los ao que se sabe de Marielle? Uma pessoa comum, portanto, montou aquela narrativa. Sua alma sofreu deste espírito. A pessoa está a manifestar-se, entende ela, como Marielle.

Não sei bem o que dizer de mim, se eu não recorrer a algum discurso ouvido por aí. Por isso busco ser representado, que alguém se manifeste e então eu diga “pára tudo que esse sim me representa! “. Agora, com Marielle, não digo que ela me representa. Uma pessoa ausente permite que eu fale, que o eu ocorra.Essa é a função da persona.

A história de Marielle é um convite para que cada um canalize suas disposições mais justas e generosas. Também mais bravas. E não há problema que isso não passe do presente, como não passará.

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