Meus sentimentos sobre os primeiros dias de governo

Francamente, nunca senti tamanha tristeza, tristeza tão profunda como esta, aperceber-se com o coração dilacerado, as emoções perturbadas e o espírito tão consternado e, até mesmo, impotente. Sentir-se com as mãos condenadas a permanecerem atadas a fortes correntes opressoras. Ver-se envolto de temor e inquietação, estado de espírito este muito capaz de destroçar todas nossas esperanças, que num impulso silencioso nos enche a vida. Pois os ventos que a vida nos trazem rumam até nós para acariciar nossos rostos com longínquas promessas. E o que o ser humano há de perder quando as esperanças se vão senão as próprias cores com que fora pintado o mundo. Isto, posso dizer, mal expressa a conturbação dos meus sentimentos hoje.

As novas medidas foram tão sorrateiramente incorporadas, tão devastadoras, que nossos impulsos se ofenderam à altura. Quem imaginaria que nossos corações seriam fustigados por esses golpes covardes? A retirada da FUNAI para a demarcação de terras indígenas, entregando a competência ao Ministério da Agricultura; a exclusão das comunidades LGBT nos intentos dos Direitos Humanos, isto tudo é por si só inaceitável. E sem considerar a forma ditatorial das Medidas Provisórias, que escoavam a cada traço das suas mãos tão grosseiras e tão rudes, atropelando, então, todo o Congresso e toda sua democracia. Este açoite traiçoeiro em meu peito me oferece tanta indignação entrelaçada com temor que minha boca se aperta e emudece. E ouvir os gritos silenciosos daqueles que nada disseram, isto é tão desesperador e ainda faz com que o desamparo se aposse de mim. Nós precisamos de uma resposta digna de todos os partidos democráticos e defensores das liberdades individuais e não somente rascunhar alguma nota de repúdio a isto. A situação não compete mais a isso, este agir perverso deve ser contestado com todo ardor que há em nós. Nosso âmago carece de ser alimentado com outras novas promessas e nossos olhos não podem mais crer que estamos circundados neste abismo de perversa irrealidade.

Nesta hora, precisamos de Ciro Gomes, precisamos da Tabata Amaral e precisamos da nossa oposição organizada. Precisamos até de Haddad, se este quiser ser levado a sério. Pois o que está caminhando em nossa direção é a truculência e o descaso para com a Constituição. Bolsonaro cospe seu palavrear aos ares somente para afagar os ouvidos do seu eleitorado não-fascista. Mas essas intenções nada significam, são palavras vazias e não expressam nada. O apreço que jaz no interior de Bolsonaro às bruscas diferenças sociais e diferenças de tratamento é tão avassalador que o mesmo já almeja revisar as demarcações de terras indígenas já julgadas e concedidas aos índios. Claro, para retirar os direitos conquistados. Aliás, já notamos qual é a veia pulsante do governo Bolsonaro: se trata da exclusão, da eliminação. “Contra tudo que está aí”, esse é o lema dele, ou seja, pautar-se pelo negativo, por retirar, por diminuir. Não é do gosto de Bolsonaro ver florescer novas e belas benesses que irão agraciar no horizonte o desabrochar do nosso viver.

O novo governo que se impõe já começa a se digladiar e a bater as cabeças. Entre uma declaração descabida e entre um recuo e outro, escapa sempre algo maldoso de suas mãos. Meus caros, isto é só o começo, há muito o que nos espera. E apesar do enorme desalento que assola nosso íntimo, da desesperança que enfrentamos e do abandono em que nos encontramos, a situação nos pede uma outra coisa: resistir, resistir e resistir. Agora é a hora de nos articularmos, de nos enchermos de textos, de vídeos, de ocuparmos tudo que estiver ao toque das nossas mãos. Como meu querido amigo Paulo Ghiraldelli expressou em um vídeo, agora é o momento para estudarmos aquilo que estes desumanos mais repudiam: Paulo Freire, Marx, Gramsci etc. E para eles, qualquer clássico é insuportável. É hora de a universidade responder a estas investidas tão bestiais, temos que reafirmar nossa liberdade e autonomia. Temos que resistir!

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