Mínimo leitor

Comecei a ler o livro do Frederico Lourenço, “O Livro Aberto: Leituras da Bíblia”, mas tive que dar uma parada para vir escrever estas linhas. Ele falou algo muito simples, mas que nunca, fora do círculo de algumas religiões, pensamos: a Bíblia é muito bonita. Independentemente de você crer ou não em Deus, ou de ter ou não religião, é de deixar pasmo o castigo de Adão, o dilúvio, a obediência de Abrãao, as decisões de Salomão, o feitos bons (e o malfeito) de Davi, o sofrimento dos mártires, e tudo o mais.

A Bíblia é algo que, assim que eu pego, dá-me vontade de parar um pouco, não porque está ruim mas, sim, para escrever. Por isso estou devagar na leitura. Cada história tem seus sentidos, dados pelas interpretações que receberam pela tradição da Igreja. A fruição delas alimenta a fé dos que possuem isso. Essa fruição, entretanto, não tem que se restringir a quem também fé.

A fruição dos sentidos tampouco precisa ser para “grupos”. Os sentidos compõem a beleza, como não? Os que tomam partidos religiosos ou anti, (e estendo aos partidos, cortados, de outros assuntos) políticos a ou b, e teóricos a ou b, lêem com a preocupação de se municiarem e formarem sua identidade. Argumentos e formação de um “eu sou aquele que leu x” na verdade vêm depois da leitura prazerosa. Digo mais, do permanecer cativo. Suspeito que aprecie mais um texto quem suspira por ele do que quem se apressa a tirar dele argumentos que mais parecem munição e vazia afirmação de si mesmo.

Ser tocado por um texto é, naquele momento, pensar mais em quem tocou do que em quem foi tocado. É acusar o golpe, estando desnorteado. É ver diferente, e querer contar para quem também sentiria o golpe. O Fedro, do Platão, é um belo golpe. O Fédon, então, é uma lindíssima porrada.  

Não saber apreciar um texto também é ter dificuldade em apreciar as demais coisas, como uma conversa, a visão de um cachorro correndo ou uma aranha. Essa condição é uma perda, um dia se possuiu essa capacidade. Crianças têm atenção boquiaberta com o que está à volta, como se vivessem junto a elas. Um dia Adão deu ouvidos não às coisas, mas a uma inteligência deformada pelo partido, e também quis tomar partido. Adquiriu a linguagem, imitando o Verbo, e saiu da experiência imediata.

O homem passou então a trabalhar para viver, a trabalhar como luta (a vida virou luta), a conhecer como trabalho, e a trabalhar para ter um mínimo eu. Uma pergunta como “qual filósofo você acha bonito?”, ou a afirmação “leio a Bíblia porque eu gosto”, são estranhíssimas para ele. Mas essas frases dizem do melhor tipo de contato que se pode ter com um texto.

 

A imagem é da pintura “A incredulidade de São Tomé”, de Caravaggio.

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