Na boleia do caminhão.

Quem é da velha guarda sabe que durante muito tempo nossa sociedade viveu um período de certa paz social. Depois da luta pela redemocratização nos anos 80, e do impeachment do Collor no início dos anos 90, pouca coisa movimentou as pessoas. Um ciclo de certa estabilidade – e porque não, conformismo – tomou conta do Brasil. Fernando Henrique Cardoso estabilizou a moeda, controlou a inflação e assentou bases da economia Em seguida Lula promoveu a distribuição de renda, aumentou o consumo, e fez o país crescer. Dilma não ficou atrás, e deu continuidade a essa trajetória durante seu primeiro mandato. Isso é aquilo que meu amigo filósofo Paulo Ghiraldelli Júnior chamou de “ciclo FHC-Lula-Dilma”. Ou seja, o Brasil que tínhamos até 2014 era fruto do trabalho desses 3 presidentes, e não apenas de um deles, por mais que o militante partidário não quisesse admitir isso de ambos os lados.

Porém, Dilma quebrou esse ciclo no seu segundo mandado que – para sorte de todos nós – não chegou ao fim. Enquanto tudo estava na perfeita harmonia a Presidenta seguia em alta. Mas depois de uma série de erros na política econômica que atualmente são admitidos inclusive pelos próprios petistas, a coisa degringolou de tal forma que a inflação saiu do controle, o desemprego subiu, a renda caiu, e a economia entrou de ladeira abaixo na maior recessão da história do Brasil. Dilma não conseguiu se manter no cargo e levou uma rasteira do seu fiel escudeiro, aquele Vice-Presidente que os petistas insistem em dizer que não viram a foto dele na urna na hora de votarem, o Michel Temer.

Mas nem tudo aconteceu no segundo mandato de Dilma. Ainda no primeiro mandato, mais especificamente em 2013, a população tomou as ruas numa revolta contra o aumento da passagem de ônibus por um lado, e os altos gastos com a Copa do Mundo e as concessões exorbitantes a FIFA, por outro. A população cansada da classe política brasileira resolveu tomar as ruas. Agora, diante da manifestação dos caminhoneiros (aliada aos escândalos de corrupção), a situação não é diferente. Cansados dos aumentos diários no preço do óleo diesel, os caminhoneiros decidiram cruzar os braços. Com uma forcinha dos empresários do ramo do transporte que pegaram carona no movimento para arrancar concessões do governo, os motoristas de todo o Brasil conseguiram paralisar o país e encurralar o Presidente Temer. Tudo isso a partir da boleia de um caminhão. Fizeram o que nenhum partido de esquerda ou sindicato conseguiu fazer, ou seja, por um freio na maluquice do Temer.

Mas é preciso ter em mente que o que começou nas boleias dos caminhões pelo Brasil não terminará com essas manifestações. A reivindicação dos caminhoneiros é mais do que justa, é essencial. Que o custo de vida no Brasil sempre foi alto devido à carga tributária pesada e o baixo retorno do Estado por meio de serviços públicos ruins, todos nós sabemos. Porém, enquanto a economia crescia, estávamos com o pleno emprego e a renda em alta, quase não sentíamos isso. Mas agora, com a economia ainda patinando, o desemprego nas alturas, e a renda sem crescer – em alguns casos diminuindo – o peso da vida no Brasil bateu a porta da população. O Brasil precisa daquilo que não foi feito nos 20 anos do ciclo FHC-Lula-Dilma. Primeiro uma reforma tributária profunda que equilibre a balança, pois hoje o pobre paga mais impostos que o rico; depois investimento pesado em infraestrutura para gerar crescimento estável a longo prazo, aliado a melhoria da escola pública através do salário do professorado para sairmos da lanterna do PISA; e por fim, a diminuição da desigualdade social através do achatamento da pirâmide de renda do Brasil (distribuição de renda como fez o governo Lula foi importante, mas só remediou o problema). Só assim o Brasil realmente vai poder voltar a ter um pouco de tranquilidade social. Caso contrário, as revoltas da população só aumentarão e se intensificarão cada vez mais enquanto nossa classe política parece cagar na cabeça do povo como se fossem pombos.

Licenciado em História pela UFRuralRJ e Especialista em Ensino de História pelo Colégio Federal Pedro II. Professor de História da rede pública no Rio de Janeiro. Pesquisa história antiga, especificamente Jesus Histórico, judaísmo, Judeia Romana e Cristianismo Primitivo.

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