Naked eye

A olho nu
 
No filme “O Homem Nu” (dir. Hugo Carvana, 1997), Cláudio Marzo pisou fora do apartamento para buscar um pão. A porta fechou-se atrás dele, e a mulher estava no banho, não podia ouvir os apelos. “Vão me ver”. Ele saiu do prédio, e logo viu-se correndo pela rua, perseguido por uma multidão. “Estão me vendo”.
 
Minha filha saiu do banheiro e foi para o quarto dela. Passei em frente à porta, na hora em que ela saiu. “Ai, estou nua!”
 
Adão e Eva não se enxergavam. Ao comerem a fruta proibida, seus olhos se abriram. E foram direto para a nudez um do outro, fazendo cada um envergonhar-se da própria. A função primordial dos olhos é ver a nudez. Aí está a verdade do homem: ficar nu e ver o nu. Assim que elas foram descobertas, o primeiro passo foi proibi-las. O homem não pode ficar nu, ser visto nu. E seu olho não pode cumprir sua função primordial.
 
Um filme pornô mostra para o olho ver à vontade. Não é a nudez que o olho não pode ver. Não me sai da cabeça o dia em que fui ao banheiro na casa do meu amigo, na hora errada. Passei em frente ao quarto da mãe dele. A porta estava aberta, e ela, toda nua, só arregalou a boca e os olhos. Imagens como essa não saem da cabeça.
 
Vi o que não deveria ter visto. Ela ficou como não deveria ter ficado. Não houve tempo para o meu querer ou meu não querer ver. Nem para ela se esconder. Não foi um segredo sobre a mãe do meu amigo, nem sobre mim. Pode-se dizer uma porção de coisas: que ela se descuidou, que eu passei na hora errada, que eu me dei bem, que nos envergonhamos, etc. Frases sobre quando aos meus olhos foi dado o que eles não podiam ver. E sobre quando à nudez dela foram dados os meus olhos. Frases paradas exatamente sobre o ocorrido. O momento do olhar e da nudez. Não há como desver. Então não adianta aparecer de roupa, depois.
 
Não queremos ficar nus na rua. Mas bem que gostaríamos de ver tal coisa. Agora, enviamos nudes para determinadas pessoas. É impossivel não ver um nude que te mandam. E ficamos pensando em quando podemos enviar um nude para alguém. Criar um acidente, mas de comum acordo, sem risco.
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