“Não é a mamãe!”

Argumentos válidos são, na Lógica, um conjunto finito de proposições, entre os quais ao menos uma é premissa (pode haver mais de uma premissa no argumento) e outra é conclusão. Outra característica do argumento válido é a de que ele é montado de tal forma que, se as premissas forem verdadeiras, a conclusão o será. Daí se dizer que à Lógica importa a forma dos argumentos, não o conteúdo deles.

O que se pode dizer de básico sobre a forma de apresentação de um argumento é que ele se organiza na sequência P1, P2, P3… Conclusão. Na forma escrita, cada uma dessas proposições é disposta verticalmente (a primeira sobre a segunda, a segunda sobre a terceira, etc).

Em nossas falas e escritos é comum lançarmos frases conclusivas. E, perguntem ou não a razão do que dissemos, damos a explicação. Quer dizer, na linguagem comum, diferentemente da apresentação formal de um argumento, as premissas ou razões explicativas ocorrem depois, não antes da asserção.

Uma fala comum não pretende ser teórica. Ela é mais ou estilo jornalístico, com “manchetes”. Alguém ligado a alguma disciplina teórica frequentemente pode causar incômodo às pessoas ao “dar muitas explicações”. Ele mostrará ser uma “pessoa normal” ao participar da maneira como as “pessoas normais” conversam.

Acontece, porém, de, em nome do ritmo que nos impomos, não aprendermos a ouvir razões ou a dar razões. Muitas discussões ocorrem por serem trocas de asserções, nenhum dos contendores procura convencer o outro. Talvez cada um não esteja racionalmente convencido do que diz. Aí tudo fica ilógico.

Nem sempre vivemos mal com isso, na verdade. Um homem diz a uma mulher que ele fará tudo por ela. Ou que se tornará um marido melhor. Para ela, ouvir isso é o bastante para saber as intenções de compromisso dele, ou para dar-lhe uma nova chance. Funciona também assim quando a mãe diz à criança que tudo ficará bem. Sloterdijk nos diz que essa é uma promessa impossível, porém necessária para o surgimento do sujeito como aquele que se auto promete que tudo ficará bem, e então ergue-se, torna-se sujeito. Asserções sem razões têm um estranho poder de acalmar. Ninguém pergunta a Deus porque uma coisa é boa.

A filosofia metafísica é uma, a analítica, a análise da linguagem, é outra. Agamben diz que toda hipótese filosófica tem algo de mitológico. O mito não se explica. Ele explica. Segundo este filósofo, o homem tem metafísica por ser um animal falante: pela própria forma como ocorre a fala, a coisa mesmo que se fala se anuncia, como um esteio, uma referência para quem ouve, mas logo ela se retira, deixando apenas um som. Por isso não se fala propriamente as coisas, mas sobre as coisas. A fala da mãe é segura, parece estar mais próxima daquilo que não requer explicação. Ela explica, dá o tom. Esse tom é íntimo.

Publicamente o que se espera são razões. Colocar as próprias exigências de intimidade em público faz com que se queira que o que se diz seja aceito, de qualquer maneira. Ou, como muito se tem visto, faz com que se grite que os dizeres dos outros são “fascistas”, redutores da própria liberdade. É como se estes, à procura de uma mãe, dissessem “não é a mamãe” para todos os demais. E é por isso que tantas demandas que ora se apresentam são tão desrazoáveis.

É preciso entender as necessidades metafísicas de si mesmo, e também buscar a razoabilidade do que se diz.

Gostou? Compartilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *