Narradores que não acreditam em suas próprias narrativas (O Neofascismo brasileiro)

Neofascismo Brasileiro
Neofascismo Brasileiro

 

Que narradores seriam estes, que não acreditam em si mesmos?

São aqueles narradores que insistem em afirmar que não acreditam em narrativas fascistas, mesmo que eles não tenham feito a pergunta principal sobre este assunto. Afinal, o que é o fascismo?  

É claro que a palavra fascismo está extremamente desgastada. Ela foi usada incorretamente pela esquerda brasileira por muito tempo e em diversas aplicações que não fazem o menor sentido. Para certos setores de esquerda, tudo aquilo que não gostam, ou mesmo qualquer visão de direita já se considerava como fascismo acriticamente, pois por mais que o fascismo seja conservador em alguns casos ele pode ser inclusive de esquerda, mas precisamos ir além.

Para muitos, quando se diz que o governo atual é preocupante em função de suas palavras, de suas ideias, propostas e plano de governo, criam em um certo imaginário de um lado que uma nova Ditadura Militar aos moldes da que ocorreu em 1964 poderia voltar a ocorrer, de que um Mussolini ou mesmo um Hitler pudesse retornar ao poder com as mesmas ideias e recriar um mesmo governo. Já de outro lado, há apenas o esquivo e o manear de cabeças repetindo que já não se acredita em tais narrativas ultrapassadas, mesmo que as tenham narrado. As duas estão erradas.  

As palavras do presidente da república ficaram gravadas em jornais, revistas, áudios e vídeos. Não são simples palavras, mas sim um conjunto de ideias retrógradas, que em suma são por si só um aglomerado de um certo ideal contra a democracia e revelam muito mais dele do que seus assessores agora querem mostrar ou maquiar. Isso não pode ser apagado. Não tão facilmente como se imagina. Suas ideias são as não ideias e seu plano de governo não existe, nem nunca existiu. Ele não possui propostas, apenas frases, improvisos e intenções e são justamente estas intenções que preocupam muito a todo o democrata.

Ainda assim, é necessário resgatar o que foi o fascismo e o que é hoje, ou seja, como ele se dá hoje, a fim de tentarmos entender melhor a questão. O fascismo foi um movimento político, ideológico, filosófico ou regime político (estabelecido por Benito Mussolini na Itália, em 1922), que fez prevalecer os conceitos de nação e raça sobre os valores individuais e que é representado por um governo autocrático, centralizado na figura de um ditador ou “de um homem forte no comando”. É necessário pegar o slogan de campanha de Bolsonaro e analisar se realmente: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, não se trata exatamente disso.

São várias as semelhanças do governo Bolsonaro ao fascismo e ao nazismo, que foi justamente um tipo de fascismo. O slogan de campanha, que foi inspirado no brado da Brigada de Infantaria Paraquedista do Exército surgiu no final da década de 1960, durante a ditadura militar, pouco depois do decreto do Ato Institucional nº 5 (AI -5). Seria esta uma forma de relembrar aqueles tempos especiais para este governo, que foi o último governo de extrema direita e militarista que tivemos. Deus acima de todos, também trata-se de um conceito onde se quer determinar algo acima dos valores de indivíduos. Sim. Qual deus? O meu?, o seu? E aqueles que não acreditam em nenhum deus?

Seria necessário separar o País do Estado. Ainda que o país seja de maioria cristã, o Estado é laico e estas expressões e atitudes religiosas não deveriam se aplicar desta forma. Na Alemanha de Hitler, uma das frases mais repetidas era “Deutschland über alles”, que quer dizer: “Alemanha acima de tudo”, para nós que vivemos em uma Democracia liberal, em um Estado democrático de direito, o Brasil não está acima de nós, claro. Podemos inclusive processar o Estado quando ele está errado e mesmo que isso seja uma “metáfora patriota quanto ao país e não do Estado”, ela não é uma boa lembrança. O termo Cidadão de Bem, também muito usado em campanha e durante a sua trajetória política de 30 anos, é o mesmo termo que deu nome a um jornal fundado em 1913, nos EUA, que apoiava o terrorismo racista da Ku Klux Klan. Vemos desta forma que a semântica usada por Bolsonaro, infelizmente é bem parecida.

Hitler Mussolini e Hirohito, se uniram em prol de ideais justamente de sangue, nação e raça, ideias clássicas de um extremismo político de direita. A ambição do controle cultural, fez nascer, ou melhor, aflorar e se desenvolver um tipo de racismo como o científico, onde inclusive a destruição da cultura não foi suficiente, chegando a necessidade de destruição dos indivíduos considerados inferiores. E eles mesmos, sempre foram colocados e se colocaram como superiores. Estas são sem dúvida ideias de extrema direita assim como as de Bolsonaro, ainda que agora ele queira se esconder ou se omitir diante de seus marketeiros ou atrás de seu partido supostamente liberal, de centro direita. Sabemos bem que Bolsonaro é um extremista e conservador, um militar estatista e autoritário, que nunca foi adepto de liberalismo algum, muito pelo contrário, foi extremamente crítico de liberais como FHC e sempre elogiou a Ditadura militar brasileira, chegando a chamá-la de “Regime”, ou mesmo de “revolução”.

O governo de Bolsonaro não é simplesmente a caricatura do fascismo, pois o fascismo como o conhecemos passou, fracassou e foi repudiado pelo mundo todo após o fim da segunda guerra mundial. Ele ficou enterrado e esquecido até o renascimento de movimentos neonazistas e neofascistas, supremacistas de extrema direita no mundo todo. Bolsonaro com seu discurso e atitudes, faz parte sim de um neofascismo brasileiro. De um novo modo e abordagem desta ideologia. O fascismo nem sempre é político. Ele tem raízes em comportamentos sociais e há uma psicologia política nisso.  

Bolsonaro expressa todo seu neofascismo ao falar contra homossexuais, contra mulheres, contra imigrantes, fazer certos comentários sobre negros, comentários sobre pobres, colocar seu populismo a serviço de um jogo de mentiras onde em um momento ele é ultraliberal e em outro conservador, ser a favor da tortura, em dizer que os adversários são inimigos que devem ser varridos do país, em dizer que não controlaria a mídia, mas estar demonstrando o contrário. Suas ideias e propostas são em prol da limpeza social, sua campanha toda baseada em mentiras, boatos e notícias falsas, ele é adepto de um maniqueísmo e maquiavelismo de ocasião e alimenta a ideia de milícias e fascios.

A democracia foi reforçada no século XX após a segunda guerra mundial e a queda de ditadores que queriam invadir nações e fazer um neocolonialismo com expansão econômica e cultural. em 1945 foi criada a ONU e em 1948 foi criada a Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pelo ONU. É simbólico quando o militarista Bolsonaro, com grande parte de seu governo sendo militar inclusive fala em sair da ONU e diz que Direitos Humanos não servem para nada e devem ser aplicados, apenas para “humanos direitos”. Mas quem define “humanos direitos” ou “cidadão de bem”? Ele? Direitos humanos não seria justamente para quebrar o monopólio da força que o Estado possui e evitar repetir o fascismo e o nazismo?

O neofascismo geralmente inclui nacionalismo, nativismo, anticomunismo e oposição ao sistema parlamentarista e à democracia liberal, tudo que Bolsonaro pratica cotidianamente. Relembrando as 14 lições para identificar o neofascismo e o fascismo eterno de Eco: 1- O culto da tradição; 2- Problemas com questões da vida moderna; 3- O irracionalismo; 4- Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas; 5- O medo da diferença; 6- O Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social.

O que explica por que uma das características dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos; 7- na raiz da psicologia Ur-Fascista está a obsessão do complô, possivelmente internacional. Os seguidores têm que se sentir sitiados. O modo mais fácil de fazer emergir um complô é fazer apelo à xenofobia. Mas o complô tem que vir também do interior: os judeus são, em geral, o melhor objetivo porque oferecem a vantagem de estar, ao mesmo tempo, dentro e fora.

Na América, o último exemplo de obsessão pelo complô foi o livro The New World Order, de Pat Robertson. 8- Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo. 9- não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente.

10- O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. No curso da história, todos os elitismos aristocráticos e militaristas implicaram o desprezo pelos fracos. O Ur-Fascismo não pode deixar de pregar um “elitismo popular”. 11- Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói. Em qualquer mitologia, o “herói” é um ser excepcional, mas na ideologia Ur-Fascista o heroísmo é a norma. Este culto do heroísmo é estreitamente ligado ao culto da morte.

12- Como tanto a guerra permanente como o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o Ur-Fascista transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Esta é a origem do machismo (que implica desdém pelas mulheres e uma condenação intolerante de hábitos sexuais não-conformistas, da castidade à homossexualidade). Como o sexo também é um jogo difícil de jogar, o herói Ur-Fascista joga com as armas, que são seu Ersatz fálico: seus jogos de guerra são devidos a uma inveja pênis permanente.

13- O Ur-Fascismo baseia-se em um “populismo qualitativo”. Em uma democracia, os cidadãos gozam de direitos individuais, mas o conjunto de cidadãos só é dotado de impacto político do ponto de vista quantitativo (as decisões da maioria são acatadas). 14- O Ur-Fascismo fala a “novilíngua”. A “novilíngua” foi inventada por Orwell em 1984, como língua oficial do Ingsoc, o Socialismo Inglês, mas certos elementos de Ur-Fascismo são comuns a diversas formas de ditadura.

Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico. Devemos, porém estar prontos a identificar outras formas de novilíngua, mesmo quando tomam a forma inocente de um talk-show popular.  

Quando um narrador ultrapassa a complexidade do discurso neofascista, não o percebe e minimiza a potencialidade de ideias antidemocráticas em uma nação com fortes tradição de golpes e enfraquecimento democrático como o Brasil, ele está se expondo ao risco de acreditar que isso não existe mesmo ele tendo visto provas exaustivas de que existe e mesmo tendo ele narrado isso e tendo o esforço de ignorar ou desconsiderar, sendo ele portanto um narrador que não acredita em sua própria narrativa. 

 

Autores usados:

 

Paulo Ghiraldelli Jr.

Umberto Eco

Músico multi-instrumentista e Especialista em Tecnologia da Informação.

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