No que crê o homem, e o que ele faz

No século II a.C, Antíoco Epifânio foi rei da Síria. Ele quis forçar a helenização da Judeia, perseguindo os costumes dos judeus e invadindo e profanando o Templo de Javé. Em um episódio constante no 2 Macabeus, ele prendeu uma mulher judia e seus sete filhos. Com torturas e chicotadas, ele ordenou que aqueles judeus comessem carne de porco, proibida para eles. Um dos rapazes levantou a voz para dizer que sua família estava pronta para morrer, antes de desobedecer às leis dos seus antepassados. O rei enfureceu-se e mandou que cortassem a língua, arrancassem o couro cabeludo e decepassem os braços e as pernas do insolente. O jovem, ainda vivo, fora posto em uma assadeira¹.

A mãe e os irmãos assistiam a tudo, e diziam um para o outro, em língua dos seus antepassados, que eles deveriam ter coragem, pois o Senhor Deus os observava e certamente terá compaixão deles. Os carrascos pegaram o segundo jovem, e logo arrancaram seu couro cabeludo. Perguntaram se ele aceitaria comer a carne de porco, antes de ser torturado. A proposta foi recusada, e aquele mesmo suplício foi feito a ele. Antes de morrer, o jovem chamou o rei de bandido e disse que sua família está morrendo não por causa dele, mas por causa da lei do rei do mundo. E este rei os fará ressuscitar para uma vida eterna.

O terceiro jovem foi pego e, por conta própria, ofereceu a língua e as mãos para o corte. “De Deus eu recebi esses membros, e agora, por causa das leis dele, eu os desprezo, pois espero que ele os devolva para mim.” Também foi posto para assar. O quarto irmão, após passar pelo mesmo tratamento, disse que para aqueles que os matam não haverá ressurreição para a vida. O quinto completou esta ideia, também antes de morrer, dizendo que o rei Antíoco é um simples mortal, porém não tem limites para o que faz com os homens. Com grande poder, Deus torturará Antíoco e sua descendência.

O sexto irmão, antes de ser levado ao forno, disse que aquele sofrimento é por culpa deles mesmos, daquela família, pois pecaram contra Deus. Rei Antíoco é perverso, e isto será punido. Mas aquilo que ocorre àquela família é a correção de um pecado, ou seja, a recondução deles às leis de Deus. Vendo a morte dos seus filhos, a mãe pôs-se a dizer: “Não sei como vocês apareceram no meu ventre. Não fui eu que dei a vocês o espírito e a vida, nem fui eu que dei forma aos membros de cada um de vocês. Foi o Criador do mundo, que modela a humanidade e determina a origem de tudo. Ele, na sua misericórdia, lhes devolverá o espírito e a vida, se vocês agora se sacrificarem pelas leis dele”

Antíoco puxou o jovem restante, o mais novo, e para ele prometeu riqueza e felicidade, o faria amigo dele próprio, caso ele renegasse as tradições dos seus antepassados. O menino não aceitou. O rei mandou a mãe convencê-lo. A mulher abaixou-se ao lado do filho e, enganando o rei, disse: “Meu filho, tenha dó de mim. Eu carreguei você no meu ventre durante nove meses. Eu amamentei você por três anos. Eduquei, criei e tratei você até esta idade! Meu filho, eu lhe imploro: olhe o céu e a terra, e observe tudo o que neles existe. Deus criou tudo isso do nada, e a humanidade teve a mesma origem. Não fique com medo desse carrasco. Ao contrário, seja digno de seus irmãos e enfrente a morte. Desse modo, eu recuperarei você junto com seus irmãos, no tempo da misericórdia.”

O rapazinho virou-se aos guardas e afirmou que os irmãos dele, naquele momento, já participavam da aliança com Deus. E que aquele rei receberá enormes flagelos, que o farão reconhecer que Deus é o único. O menino então sofreu os piores castigos de todos, em comparação com os de seus irmãos. Após ele, sua mãe também foi morta.

Em uma cena de brutalidade, aqueles rapazes e sua mãe sustentaram uma outra cena: o rei verdadeiro não é Antíoco, mas Deus. Deus criou tudo do nada, e do nada voltará a criar tudo. Portanto, a vida que surge, surge por Ele. E quando morre, se reconhece a lei Dele, voltará a viver. Ser servo de Deus é dobrar-se às leis Dele, que são as mesmas que foram seguidas pelos próprios antepassados. A cena em que o mundo é criado e governado por Deus é apresentada geração após geração de judeus, diante das agruras enfrentadas com outros povos e reis, e também diante dos desafios de sua organização de vida. Cada indivíduo encontra o que deve ser feito, nesta tradição de leis. E o que deve ser feito se distancia dos poderes com que circunstancialmente o povo escolhido por Deus se depara.

As leis de Deus e a tradição judaica são, nesta história, um lugar a partir do qual o indivíduo age. O maior desafio do judeu é manter-se sob esta estrutura. E a maior punição que alguém pode receber é ser obrigado a aceitar uma crença, é ter de dobrar-se a um outro poder, reconhecendo-o como absoluto. Antíoco não escapará disso. Para o filósofo alemão Peter Sloterdijk, sujeito é aquele que se autoconsulta e se autodesinibe. Ele conversa com uma razão interna e, através disso, sai da teoria e vai à prática. O terceiro jovem morto, na família de judeus, antes de qualquer coisa ofereceu sua língua e mãos para serem cortados. Isso causou admiração ao rei e seus soldados. Não foi um ato de obediência a eles, mas algo cuja explicação deveria ser buscada em outro lugar. Este lugar fora explicitado pelo próprio rapaz, quando ele disse que aqueles membros lhe foram dados pelo mesmo ser que os daria de volta a ele, infinitas vezes, contato que o jovem seguisse as leis dos antepassados de sua família.

Paulo Ghiraldelli Jr explica, na esteira de Peter Sloterdijk, principalmente no livro Esferas I, que diferentemente do homem grego antigo, que se fazia sujeito a partir de uma adesão completa às leis da cidade, num comunitarismo objetivo, portanto, o homem do início do cristianismo era sujeito através de um comunitarismo subjetivo, seguindo leis não de uma cidade, mas de uma narrativa de linhagem². Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e também a mulher, ambos filhos Dele. O triângulo da família era o único modo de relação conhecido pelo judeu nômade.

Sloterdijk critica a ideia de intimidade e de relação que o homem moderno mantém: elas surgem da figura histórica do indivíduo, vinda do liberalismo, tendo como background a ideia de intimidade, forjada pela religião cristã. Este indivíduo é como seria uma mônada, forjada por si mesma e auto suficiente, e que, apenas circunstancialmente e sem nenhuma implicação maior, se relaciona com outras mônadas. Contra esta ideia, Sloterdijk conta que o homem é essencialmente dual, surgindo como participante de uma ressonância entre ele e um algo, dois pólos. No útero da mãe, a placenta envolve o feto, mas ao mesmo tempo faz parte dele. A ressonância que eles mantém entre si produz uma esfera elíptica, que os envolve. É um terceiro elemento que ao mesmo tempo veio e faz parte dos elementos anteriores.

Ghiraldelli lembra, ainda com Sloterdijk, que Martin Buber dizia que o homem tem uma “nostalgia do Tu”³. Ele tem um instinto de relação, uma inclinação natural a fazer coisas junto com outros. Como a placenta, um parceiro primevo do homem pode ser encontrado na figura de Deus. Agostinho escreveu nas Confissões sua dificuldade em reencontrar-se com aquele com quem um dia esteve, mas do qual se distanciou em troca das coisas do mundo. O homem separou-se de Deus ao não obedecer a Ele. Esta obediência não era em relação a algo externo, como um indivíduo se relaciona com uma lei da cidade. Era obedecer como participar daquilo para o qual ele mesmo fora criado: para ser semelhante a Deus, e governar o mundo. Pai, filho e Espírito Santo eram uma unidade trinitária. Portanto, o homem que obedece à lei de Deus obedece a si mesmo, está em contato consigo próprio.

Agostinho4 conta que Deus, infinito, habita o interior do homem, finito. O homem, então, precisa afastar-se daquilo que entende como sendo o próprio eu, que não é a verdade dele mesmo, e abraçar o sujeito que está dentro dele, sua essência e realidade.

Boécio, um nobre romano cristianizado, e que estudou filosofia grega quando jovem, havia perdido seus bens, sua honra e liberdade, e logo perderia a vida5. Havia sido acusado de trair o governo do rei Teodorico, e amargava torturas na prisão. Como podia um homem que só havia procurado o bem dos outros, ter sido condenado à morte, enquanto homens perversos viviam impunes? Como Deus permitia isso? Essas perguntas eram repetidas e deixavam-no cada vez mais triste, com o espírito mais e mais distante de poder usar a razão. A Filosofia vem até Boécio, no cárcere, e através de um diálogo coloca-o de volta ao uso da razão. Ele relembrará a filosofia que um dia estudou. Mais do que isso: descobrirá o supremo bem. Aquilo que ele estava amargando era obra da Fortuna, uma roda que não cessa de girar, tornando temporárias tanto a felicidade proporcionada pelos bens terrenos, quanto as dores com a falta desses mesmos bens.

Boécio, assim como a maioria dos homens, é como um ponto num disco, distante do centro, que se move sem entender a inteligência que rege o todo. Tudo o que ele perdeu foram coisas que não eram dele mesmo, mas que foram dadas a ele, além de serem transitórias. E se eram consideradas bens, é por participarem de um bem absoluto. Neste cristianismo de base platônica, tudo o que existe e se movimenta foi criado e é regido por Deus. Ele é a soma de todos os bens, e a suprema felicidade. É aquilo a que tudo busca, por natureza. O homem se esquece disso, e passa a buscar os bens da terra como se lhe garantissem a felicidade. Acaba amargando o próprio destino, que invariavelmente lhe prega uma peça.

Boécio deveria elevar sua razão a este funcionamento do mundo, à inteligência de Deus, entendendo que se um bem terreno é retirado ao homem bom e dado ao homem perverso, é para testar a paciência do primeiro e lhe mostrar o quão pouco aquilo vale. Conforme diz uma passagem também de 2 Macabeus, o servo de Deus tem sua fruição de um bem terreno rapidamente interrompida, para que o seu pecado não se prolongue. Aí está uma explicação para a nossa queixa: “os bons morrem cedo”.

O homem que deixa a carne turvar sua razão, ao buscar os bens terrenos ao invés de buscar a felicidade suprema, no bem absoluto, torna-se um ser abaixo do homem. Já aquele que reconhece e segue as leis de Deus, ou seja, volta-se à sua própria natureza, torna-se partícipe Dele. Diviniza-se. Ser homem, portanto, é elevar-se acima das situações vividas, e das ideias e emoções adquiridas (o que Boécio chama de “passivo biográfico”), e retornar à sua origem, em Deus. É morrer para viver em Deus. Em Agostinho, isso é dito como abandono do eu, voltar-se ao infinito que habita nele mesmo, sendo então sujeito, abraçando a própria essência e realidade.

Hoje a fortuna virou sorte mundana, como um negócio que inesperadamente dá retorno, uma herança que chega na hora certa, um chefe que te acha bonito, etc. Desse homem não se diz que teve sorte, mas que tem fortuna6. Ele tem o espírito de aventura, o de aproveitamento da fortuna como oportunidade de uma vida. Mas, para diminuir o risco, esse homem conta com a Providência. Providência, garantimento de algo, entre nós é feito pelo Estado. O homem liberal tem o duplo aspecto de ser um acrobata e ter uma rede por baixo. Ou seja, é criativo para lançar-se às chances que o capitalismo apresenta, mas requer um Estado Providência. Ser liberal é requerer também, claro, que essa Providência traga os que entraram no jogo sem cartas, para uma situação de poderem ter cartas para também jogar, como boa educação, saúde, etc.

A economia torna-se científica. Até os humores e as vontades dos homens também se tornam científicos, em um contexto em que se deve minimizar o risco, conhecer o comportamento de todas as variáveis que produzem riquezas. Os competidores querem minimizar o risco sem, contudo, tirar o aspecto de jogo e de sorte, ou a vida ficaria completamente desinteressante. Um indivíduo deprimido, há muito tempo desempregado, consegue atendimento psiquiátrico e de serviço social, num hospital público. O Estado pode oferecer-lhe um trabalho qualquer, esperando que desse pouco o indivíduo faça algo maior. O Estado poderia dar um ótimo trabalho a este indivíduo, mas não o faz. A crítica que uma Providência super generosa receberia baseia-se no interesse dos outros indivíduos em manter o jogo interessante. “A graça do jogo tá aí.”

William James diz que somos empiristas, queremos provas para o que acreditamos, mas temos uma inclinação natural que nos leva a considerar o absoluto7. Não há como provar a existência de Deus, como se pode provar um déficit de receita pública. Mas o homem concreto tem o espírito aberto: James dá o exemplo de um cara, numa festa, que só aceita as opiniões dos outros caso eles apresentem provas, e só concede favores a quem lhe der uma retribuição. Este homem segue o intelecto, não o coração. Quer exista, quer não exista Deus, hipóteses impossíveis de se provar, é uma boa atitude estar aberto para a possibilidade de ele existir.

O livro de Jó é apresentado, na Edição Pastoral da Bíblia Sagrada, como uma crítica às teologias da retribuição, que entendem Deus pagando as virtudes dos homens com bens, e as perversidades deles com males. Bem, o homem deve entregar-se gratuitamente a Deus, e dele receberá entrega gratuita. Boécio e Agostinho mostram a operação espiritual que desencadeia o contato do homem com Deus. James explica a religiosidade nas tendências passionais e volitivas que levam um indivíduo a estar aberto a uma crença dessas, que a deixam ganhá-lo. O intelecto crítico é o ideal a ser buscado, segundo James, mas a natureza passional do homem é um determinante das suas crenças.

Ghiraldelli nos diz, acompanhando James, que nós, homens laicos, temos uma meta religiosidade sensível às muitas experiências religiosas com que nos deparamos8. Trazendo um comentário de Sloterdijk sobre A Vontade de Crer, de James, Ghiraldelli diz que em nosso processo de laicização nos desgarramos da religião, não a negando, mas transformando nosso interior para essa variedade de experiências religiosas. A que Deus podemos olhar, hoje? Talvez para um Deus esquecido do próprio plano para o mundo. Ele só não esqueceu de nos programar para atiçá-lo (pela oração) para ele voltar a realizar o plano que Ele mesmo criou. O homem faz Deus ser Deus.

Enquanto houver crença em Deus, Deus existirá. E corresponderá a toda paixão implicada nessa crença. E quando não se é um crente, que se tenha essa meta religiosidade capaz de entender as religiões dos homens e, claro, de não perder a chance de ser considerado por Deus, no caso de ele existir.  

Esta história é contada em 2 Macabeus, capítulo VII. Bíblia Pastoral. Editora Paulus, 1991.
2http://ghiraldelli.pro.br/filosofia/fortuna-e-os-espacos-de-animacao-boecio-maquiavel-e-os-modernos.html
3http://ghiraldelli.pro.br/filosofia/cristianismo-relacao-forte-e-subjetividade-em-peter-sloterdijk.html
4 idem, ibidem
Boécio. A Consolação da Filosofia. Editora Martins Fontes, 2012.
6http://ghiraldelli.pro.br/filosofia/fortuna-e-os-espacos-de-animacao-boecio-maquiavel-e-os-modernos.html
William James. A Vontade de Crer. Edições Loyola, 2001.

8http://ghiraldelli.pro.br/religiao/religiosidade-atual-james-sloterdijk.html

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