Nossa capacidade de matar

Um homem espera a abertura do portão da garagem do seu prédio. Sua esposa o acompanha dentro do carro. Aproximam-se dois homens, um deles armado. O homem que está dentro do carro é um policial. Ele puxa a arma e dá um tiro na cabeça de cada um dos outros dois homens.

Foi dessa forma que me chegou essa história, ocorrida com amigos de amigos de amigos de amigos meus. Só uma perícia poderia dizer os pormenores, e desses pormenores inferir as intenções e então apontar as responsabilidades. Mas posso dizer que um agente de segurança deve sempre agir de forma a preservar o máximo possível a segurança dele próprio e das outras pessoas. Qualquer pessoa.

Na República, Platão diz que um guardião deve ser como um cão: dócil com quem ele conhece, e desconfiado com quem ele não conhece. Por conhecido e desconhecido, Platão referia-se ao concidadão e ao estrangeiro, respectivamente. O guardião deve tratar bem as pessoas que vivem na mesma cidade que ele, mas sempre estar atento e pronto para agir caso alguém de fora se aproxime.

Alguém que se aproxima de você, na rua, pode ser tomado como um estranho com más intenções. Mas acho que o tomamos como alguém familiar, “o bandido”, para quem já temos uma pronta disposição para atacar. A imagem do bandido é muito utilizada por nós quando querermos nos permitir atirar. É como o caçador que diz precisar, de vez em quando, dar uns tiros em ursos.

Não estou falando aqui de um descontrole da ação, por um desejo de matar que tenha invadido a razão. Apesar do título dos filmes, Charles Bronson não era alguém possuído por um desejo de matar. O que ocorre é uma ação belicista, que une uma razão e uma emoção particularmente belicistas e assassinas. A razão e a emoção participam de um impulso que não quer parar.

Matar um ladrão parece que trará menos aporrinhação do que rendê-lo ou render-se a ele. A frase “foi legítima defesa” é sacada mais rápido do que a frase “tem que fazer queixa, e depois tirar novos documentos.” “Tem que levar o cara pra delegacia, tirar depoimento, dar depoimento, preencher uma papelada e abrir um processo.”, então, parece demorar um milênio. A pressa, aqui, ocorre no não se querer ter o trabalho de preservar aquela vida. O policial matou o bandido não só porque ele e sua mulher estavam sob a mira dele: o policial quis resolver logo, aquilo.

Hitler é uma figura que concentra o mal, parece que o monopoliza. Livramo-nos de nossa própria maldade. Quando os nazistas começaram a matar seus prisioneiros, foi sob o nome de “Solução Final” que o documentaram. Eles não diziam a verdade, queriam livrar seus eus de terem que ver o que estavam fazendo, e então ficarem condenados a conviverem com um assassino.

O sujeito invadido por uma vontade estranha a ele é coisa de uma psicologia moderna. Essa psicologia é herdeira de uma psicologia platônica, em que, além dos apetites e da razão, havia o lugar do thymos, a sede do orgulho, da ira e do senso de justiça. Hoje, vemos o homem como um ser que, quando invadido pelas próprias paixões, deixa de bem deliberar.

Mas a psicologia do defensor que mata não apresenta este ou qualquer outro conflito. Ela está mais para uma psicologia estoica (veja a diferença entre a psicologia platônica e a estoicista: http://ghiraldelli.pro.br/filosofia/alma-assassino.html), de apresentação por inteiro de um homem em seu impulso e em sua razão, vindo juntos. É um impulso e uma razão belicistas, num homem então belicista.

Noticiado mais amplamente do que o ocorrido na garagem foi um caso ocorrido ontem, em que um militar matou um homem com quem ele discutia por uma cadeira na praça de alimentação de um shopping, no Rio (http://extra.globo.com/casos-de-policia/homem-baleado-dentro-de-shopping-em-campo-grande-20280360.html). Houve posts no face dizendo que é por esse motivo que deve haver um maior controle sobre quem tem acesso à compra e à posse de arma de fogo, no Brasil. Sabemos que somos destemperados, não confiamos plenamente em nossa capacidade de nos controlar em situações que nos pareçam perigosas.

Bem, há mais um ponto que sabemos a nosso respeito, que nos aconselha a ficarmos longe de armas: não somos apenas homens do conflito psicológico entre uma razão que pesa princípios e consequencias e impulsos destrutivos, mas também somos homens de pensamentos e disposições de descarte do que nos incomoda e do não compromisso com nada. Isso faz com que, no limite, sejamos capazes de matar animais e outros homens. Sermos assassinos é algo que está em nosso horizonte.

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One thought on “Nossa capacidade de matar

  1. Todos somos assassinos em diferentes graus e épocas. Matar uma barata daqui a 100 pode ser crime, como já começa a ser crime (ao menos moralmente) matar animais para consumo, como bois, galinhas, etc. Não somos sociedades guerreiras (que lidam com a morte constantemente e precisam dela) em nossa funcionamento diário, mas em nossa essência sim.

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