Nossa mágoa para com os EUA

Quando eu era criança vivia uma coisa mas não sabia o que era. Sempre fui bom aluno, com exceção do Ensino Médio – neste último escorreguei um pouco na casca de banana. No geral fui determinado, estudioso, esforçado e comprometido com meus objetivos de vida. Consegui um Diploma de uma Universidade Federal, uma Menção Honrosa na Olímpiada Brasileira de Matemática, uma vaga na Especialização em Ensino de História no Colégio Pedro II. Fiz bons e grandes amigos, daqueles que levarei para toda uma vida. Ajudei a ressuscitar o CEFA, Centro de Estudos em Filosofia Americana, em São Paulo. Entrei para o movimento sindical e lutei pela melhoria da qualidade da educação, e acima de tudo, pela valorização salarial do professor. Isso tudo em tão pouco tempo. Não sou cinquentão. Tenho apenas 23 anos.

Uns anos trás descobri o que acontecia com algumas pessoas que estavam ao meu lado. Elas sentiam algo terrível. Não era nenhuma dor, mas bem pioro que dor de rins, que diga-se de passagem, é cruel. Eles sentiam apenas inveja.

Nunca pensei que pudesse despertar esse sentimento em algumas pessoas. Comecei a tentar entender o que eu fazia para que eles sentissem inveja. Não conseguia entender. Cada dia me esforçava mais, mas a resposta não vinha. Foi aí que comecei a perceber que a inveja era um sentimento passivo para com relação a vítima. Ela surgia independente da vítima ter consciência ou não do que estava ocorrendo. Isso faz toda a diferença. Me permitiu continuar a viver, dar duro todo dia para alcançar meus objetivos, sem se preocupar com aqueles que me invejavam.

O meu exemplo serve para explicar nossas mágoa (não a minha, óbvio, pois sou inteligente!) para com os EUA. Vejamos.

Faz tempo já que a historiografia brasileira derrubou a principal tese sobre a colonização da América por espanhóis e portugueses. Colônias de exploração versus Colônias de povoamento foi e ainda é conteúdo básico nas aulas de história, ao menos da escola. A academia – ao menos parte dela – já refutou essa tese a muito tempo. Por dois motivos básicos: primeiro a corrido do ouro a oeste nos EUA no séc. XVII que é um exemplo de busca apenas pela exploração e não pelo povoamento, ou seja, ao menos em ordens de fatores, o oeste dos EUA foi primeiro explorado para depois ser povoado, ou em outras palavras, foi povoado porque foi explorado; e segundo, porque os registros históricos mostram que no século XVII os EUA não eram nada, não passando de uma mera colônia abandonada, enquanto que as colônias espanholas, e até a portuguesa (Brasil) já possuíam infraestrutura mínima, como universidades, igrejas, pequenas vilas e povoados, e até cidades.

O fato dos EUA ter sido colonizado para a exploração tanto quanto nós destrói a imagem que temos deles como privilegiados e nós como os coitados! No séc. XVII erámos uma colônia muito mais moderna e preparada do que o norte da América. Mesmo assim os americanos se tornaram no que são hoje, a maior potência do mundo. Resumindo, os caras são fodas!!!

O que sobrou para parte da nossa população, inclusive esquerda e direita, foi alimentar uma eterna mágoa contra os americanos. Em geral a defesa dessa mágoa se dá com argumentos como: “eles apoiaram o golpe militar de 64”. Ora. Que tolice. Quem não apoiou o golpe? Toda a sociedade apoiou, inclusive Juscelino Kubitschek, as Igrejas e a imprensa. Os EUA são vistos então como o demônio capitalista do mundo, os ianques imperialistas, como se todos os americanos de resumissem ao Tea Party.

No fundo a maior parte das críticas aos EUA não passam de inveja do primo rico. Ao semelhante ao que acontece com a Rede Globo. Os americanos chegaram a um patamar inalcançável por qualquer outro país. Para termos uma ideia, cada soldado americano da conta de dez outros soldados de qualquer país. A robustez de sua econômica e sua capacidade de produção impressionam. Eles possuem a maior rede de universidades e escolas do mundo. Mais da metade dos americanos possuem nível superior em excelentes centros de pesquisa e ensino. Por outro lado, nós aqui no Brasil ainda patinamos ao redor do nosso umbigo, e em alguns momentos nós mesmos nos sabotamos.

Hoje, 11 de setembro, 15 anos após o ataque terroristas as torre gêmeas em New York, a inveja do primo rico vem à tona mais do que nunca no Brasil. As postagens no Facebook com mensagens que tentam diminuir o acontecimento do 11 de setembro são prova disso que acabei de dizer. Só mesmo pessoas muito tolas para compararem o 11 de setembro as bobas atômicas em Nagasaki e Hiroshima. Não entendem o contexto em que esse eventos ocorreram é de uma grosseria tremenda, que só mesmo alguém tomado pela inveja é capaz de cometer esse erro. Mas enquanto isso os americanos continuam indo de vento em popa, pouco se preocupando com a inveja que alguns sentem. Afinal, o invejoso nunca chega longe!

Licenciado em História pela UFRuralRJ, cursando especialização em Ensino de História pelo Colégio Federal Pedro II. Professor de História da rede pública no Rio de Janeiro. Pesquisa história antiga, especificamente Jesus Histórico, judaísmo, Judeia Romana e Cristianismo Primitivo.
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