Nosso “notório saber” de cada dia!

A reforma do Ensino Médio proposta pelo vice da Dilma e apadrinhado político de Lula, Michel Temer, gerou muito estardalhaço entre os educadores brasileiros. Até o próprio MEC dançou um samba do crioulo doido afirmando que artes e educação física estavam fora da escola média, e depois voltando atrás as pressas. A primeira impressão que veio era que o Ministério da Educação não sabia o que estava fazendo. E realmente não sabia. Afinal, o que foi apresentado vinha sendo gestado no governo Dilma, cuja própria Presidente disse em entrevista que era preciso retirar disciplinas da escola média, como a filosofia. Mendonça Filho pegou o bonde andando e sentou logo na frente, sem saber direito qual era o destino.

Um dos pontos que gerou burburinho entre os professores foi a abertura a possibilidade de pessoas que não possuem licenciatura poderem lecionar. O tal do “notório saber” ratificaria a possibilidade de um bacharel em qualquer área poder segurar o giz e professar para jovens da escola média. Rapidamente organizações de classes atacaram a medida alegando completo retrocesso. Especialistas das faculdades de educação Brasil à fora também balbuciaram críticas ao projeto. Porém, por ironia do destino, a educação brasileira vive do tal do “notório saber”. Vejamos como.

O último Censo Escolar divulgado pelo INEP (http://educacao.uol.com.br/noticias/agencia-estado/2016/03/29/quase-40-dos-docentes-nao-tem-formacao-adequada-aponta-censo.htm) revelou que cerca da metade dos professores do país estão lecionando sem a formação adequada. Isso quer dizer que na prática mais de 1 milhão de professores lecionam simplesmente por possuírem o tal do “notório saber”. Ora bolas, as reclamações as medidas da MP do Temer são besteiras, porque na realidade a lei só vai legitimar o que já acontece no dia a dia das escolas brasileiras: professores lecionando sem serem formados para isso.

Para piorar a situação, os números mostram que se metade dos professores dão aula sem ter a formação necessária, a outra metade que possui a tão desejada formação, não é lá grandes coisas. Traduzindo, a formação dos professores brasileiros é muito ruim. No português claro, os docentes não tem domínio do conteúdo que devem ensinar a seus alunos. Esse quadro piora quando nos voltamos para os pedagogos que lecionam nos anos iniciais do ensino fundamental e na educação infantil. A quase totalidade deles não tem domínio do básico da língua portuguesa e da matemática, muito menos de história, geografia e ciências.

Esse quadro explica bem o fracasso da escola pública brasileira que já dura quase meio século. Nenhuma profissão resiste a 13 reais a hora de trabalho. Sim. Isso mesmo. O professor brasileiro ganha em média 13 reais a hora-aula. A média  dos profissionais com nível superior está em 35 reais a hora em início de carreira. Dessa forma entramos em um ciclo vicioso: o magistério não atrai os melhores alunos, mas os piores, aqueles que não conseguiram algo melhor; eles se tornam professores fracos; e formam mal ou não formam os alunos; e assim a roda gira.

Dessa forma, o “notório saber” já é regra do jogo. Funcionou assim durante 14 anos de governo do PT, e nos 8 do PSDB. Nenhum deles fez o mínimo esforço para alavancar o salário do professor. Ao contrário, o partido dito dos trabalhadores fez questão de criar um piso (o que está por baixo!) dos professores no valor de R$ 950,00. Realmente, dessa forma só mesmo com notório saber pra lecionar, porque os com inteligência pula foram!

Licenciado em História pela UFRuralRJ e Especialista em Ensino de História pelo Colégio Federal Pedro II. Professor de História da rede pública no Rio de Janeiro. Pesquisa história antiga, especificamente Jesus Histórico, judaísmo, Judeia Romana e Cristianismo Primitivo.
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