O 15 de outubro passou… mais uma vez… e agora?

Ontem foi o dia da euforia no Facebook. Mais do que no meu aniversário. Mais do que quando da aprovação em concurso público ou vestibular. Nunca fui marcado em tantas postagens. Nunca recebi tantas homenagens. Nunca li tantos comentários. Sempre nesse dia. O 15 de outubro é o dia do professor no Brasil. Graças lá ao Dom Pedro II.

Dia de homenagens. Dia de alegria. Dia de frases marcantes. Dia de textos emocionados. Dia de rever fotos do passado, de lembrar velhos amigos. Dia de recordar a época da Universidade, de recordar o primeiro dia na escola, de recordar as primeiras letras e os primeiros cálculos. Dia também de lembrar dos professores que se foram, dos que aqui estão, dos que ainda somos amigos, dos que viraram colegas de trabalho. O 15 de outubro é isso.

Mas o 15 de outubro também é dia de maior falsidade por parte da sociedade brasileira. Um americano ou europeu que olhe o Facebook neste dia concluirá, e com razão, que o professor é o profissional mais valorizado e respeitado de toda sociedade brasileira. Pensará que no Brasil o professor é tratado quase como uma divindade, e que além de receber todas as benesses financeiras e materiais, também recebe as afetivas e simbólicas. Ora, que grande ilusão.

Infelizmente no Brasil a realidade do magistério se tornou nua e crua. Banalizamos o dia 15 de outubro como o dia da mentira, o dia em que nossa hipocrisia chega aos níveis mais altos. Mas como todo dia, ele dura apenas 24 horas, e acaba. A realidade volta com toda força, as vezes mais forte do que nunca, e como diziam os antigos, “ela não perdoa”.

Hoje já é 16 de outubro, e quase ninguém se lembra mais do dia que foi ontem. Todos esquecem dos míseros salários que os professores recebem. Todos se esquecem das péssimas condições de trabalho a que são submetidos. Amanhã mesmo, segunda-feira, já haverá dentro das escolas brasileiras mães e alunos agredindo os professores, e em alguns casos a agressão será verbal. Em poucas dias veremos mais notícias de professores tomando as ruas em busca de salário, condições de trabalho, e acima de tudo, respeito, dignidade e valorização. E não tardará de vermos novamente policiais descendo o cassetete na cabeça de professores, mestres ensanguentados, e senhoras com olhos ardentes sob efeito do gás de pimenta. Esse é o verdadeiro Brasil para o professor, que parece nos esquecermos dele no dia 15 de outubro. Neste dia, vivemos uma fantasia.

Por isso não fiz nenhuma postagem sobre o dia do professor. Não compartilhei, não curti, e nem comentei as que vi e li. Não há nada a comemorar nesse 15 de outubro. Eu prefiro fazer do meu ano inteiro um 15 de outubro lutando pela valorização dos magistério, e pelo respeito aos mestres. Até hoje todos os professores que tive, ainda não os chamo pelo nome, mas sim “professor”. È uma forma de respeito. A maioria dos que postaram frases e imagens bonitas nesse dia que se passou são os mesmos que respondem ao professor na Universidade, que o denunciam na Reitoria, que não o apoiam em suas greves, ou que ficam contra ele em qualquer questão. O 15 de outubro passou. Voltemos agora a realidade.

Licenciado em História pela UFRuralRJ, cursando especialização em Ensino de História pelo Colégio Federal Pedro II. Professor de História da rede pública no Rio de Janeiro. Pesquisa história antiga, especificamente Jesus Histórico, judaísmo, Judeia Romana e Cristianismo Primitivo.
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2 thoughts on “O 15 de outubro passou… mais uma vez… e agora?

  1. Essa afetividade exacerbada no dia do professor é tudo o que essas pessoas podem nos dar. Todos desacreditam na educação, na verdade.

    1. Luma, depois de muito refletir, analisar e ler, conclui uma coisa: o magistério no Brasil é sacerdócio. Os jesuítas venceram essa disputa. Mais de 80% dos professores não veem sua atividade como profissão, mas sim como dedicação, como algo que deve ser feito com amor. Eles acreditam que é preciso vocação e sacrifício.

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