O desenvolvimento parte da educação

Estou convencido de que a melhor política de desenvolvimento nacional a longo prazo é o investimento em educação. Não estou fazendo o discurso apaixonado que quase todos têm (em tese) quando entram na licenciatura. Estou falando de uma política que deu certo nos países mais desenvolvidos.

O que boa parte dos países emergentes chama de desenvolvimentismo é uma política difusa de incentivo à produção nacional de bens e serviços medíocres. No Brasil, fizemos isso em dois momentos: no governo Geisel e, recentemente, a partir do segundo governo Lula. Concedemos incentivos para setores que produzem pouco e com baixa qualidade. Criamos problemas fiscais, ambientais e de corporativismo com indústrias que, há algum tempo, fracassaram — como a automobilística. Chegamos ao ponto em que nos tornamos reféns de todo mundo: de um lado, caminhoneiros são influenciados pelos chefes para mandar o Brasil pagar a conta do combustível deles; de outro, a Coca-Cola ameaça sair do Brasil porque perdeu a isenção de alguns impostos (para pagar os caminhoneiros).

Não podemos ter uma indústria que funcione na base do “meia boca”. O simples incentivo fiscal não possui uma relação causal com o aumento da qualidade técnica do que é produzido. Às vezes, a produção nacional é tão reconhecidamente de segunda linha que serve apenas para equipar serviços públicos que também são de segunda linha (exemplo disso é a Positivo). Em outros casos, o incentivo fiscal tira, de um lado, bilhões do bolso do brasileiro e, de outro, faz com que ele pague mais caro por produtos de menor qualidade.

Esse tipo de política é absurda e, ironicamente, só traz algum resultado quando o cenário internacional é favorável. Isso não significa que o intervencionismo em algumas áreas da economia é sempre ruim. Os países desenvolvidos precisaram de certos níveis de industrialização para crescer. Mas nunca tiveram a pretensão de produzir tudo e de qualquer jeito, como no Brasil. É nesse ponto que entra a educação.

Os países desenvolvidos são altamente especializados em algumas áreas. A Alemanha possui uma indústria tecnológica exemplar. Os Estados Unidos, com seu vasto território, são especializados em uma variedade maior de setores. Nenhum desses dois países tenta produzir tudo. Tampouco, concede tantos estímulos fiscais quanto o Brasil. O que se faz é investir pesado em educação básica e superior. Ao invés de perder dinheiro com isenções fiscais para indústrias que sempre vão ser menos eficientes do que a competição internacional, o investimento vai para o ensino superior especializado em áreas estratégicas. Com os melhores cérebros e a mão de obra mais qualificada, o país está pronto para propor alguns incentivos para que os setores se desenvolvam.

A prova de que não estou cometendo nenhuma heresia é o exemplo do agronegócio no Brasil. Apesar dos problemas ambientais, que precisam ser enfrentados, o setor se desenvolveu e se tornou referência internacional com o script que eu proponho: investir em educação especializada de qualidade, em pesquisas científicas, na formação do agricultor e em tecnologias de ponta — que nem sempre são produzidas no Brasil, embora essa indústria tenha se fortalecido com o desenvolvimento da agricultura. Alimentamos mais ou menos 1 bilhão de pessoas no mundo. E, vejam só, é o agronegócio que salva o Brasil todos os anos — e não as porcarias de indústrias da Zona Franca de Manaus.

O único exemplo de país (que eu lembre) que consegue sobreviver produzindo nacionalmente de tudo é a China. Mas a questão da china é a capacidade de fazer uma produção enorme com menos recursos. Isso é muito difícil de fazer e exige uma certa dose de trabalho escravo. Em geral, os países se especializam, criam boas indústrias e ganham com a exportação/consumo, e não com a produção em si.

Ps.: tudo o que eu falei é liberalismo econômico. Se o seu candidato se diz liberal e fala em privatizar tudo, mas nem toca no assunto dos empresários que ganham muito com isenções fiscais, desconfie de que ele é apenas mais um pilantra.

Licenciado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Mestrando em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Estudante de especialização em Educação, com ênfase em Ensino de Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Editor adjunto da revista Redescrições. Membro do GT da ANPOF “Semiótica e Pragmatismo” e membro associado da The Richard Rorty Society. Finalista do Prêmio JOTA/Inac de Combate à Corrupção do ano de 2016. Participou da organização do XIV Congresso Internacional da Société Internationale pour l’Étude de la Philosophie Médiévale (SIEPM). Atua nas seguintes linhas de pesquisa: Tolerância no Liberalismo Moderno; Liberdade de Expressão; Pluralismo de Valores; Liberalismo; Socialismo; Social-Democracia; Filosofia Política e Social; Filosofia Moderna.

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