O espetáculo dos covardes e ignorantes

No Teeteto, diálogo platônico, o jovem de mesmo nome é apresentado a Sócrates por Teodoro. O assunto em pauta era o conhecimento. A tese de Teeteto era que conhecimento é percepção. Sócrates apresenta-se ao jovem como parteiro de ideias: Fenarete, sua mãe, era parteira de crianças; ele próprio fizera-se auxiliar do nascimento de ideias. Sócrates toma nas mãos a ideia daquele que estava grávido dela, isto é, toma-a como elemento de análise, por meio da sua conversa.

A ideia de Teeteto tem familiaridade com a ideia do sábio Protágoras, “o homem é a medida de todas as coisas”. Na conversa, ele e Sócrates chegam a ponto de formular que algo que é percebido e algo que o percebe são pontos reciprocamente constituídos na relação entre pólo ativo (aquilo que chega para ser percebido) e pólo passivo (aquilo que o recebe para percebê-lo). Esta formulação se encerra com Teeteto afirmando que, como é possível conhecer o que se percebe, conhecer é perceber.

Neste momento, Sócrates traz problemas: se Protágoras está certo, só o percebedor é capaz de estimar a própria experiência e de determinar se sua opinião é falsa ou verdadeira. Não haveria sentido em ser aluno de alguém, pois o conhecimento seria gerado no interior daquela reciprocidade perceptor-percebido. Se toda pessoa é a medida da própria sabedoria, a arte do parto e de discussão do Sócrates tornam-se ridículas. O mundo fica sendo o de homens que emitem as opiniões que quiserem, e ninguém pode se contrapor.

Teodoro ouvia toda a conversa. Sócrates perguntou-lhe o que tinha a dizer. Teodoro covardemente pediu para continuar sendo um observador, pois detestaria refutar seu amigo Protágoras, concordando com Sócrates, nem queria deixar de acompanhar Sócrates. A ideia de Protágoras vinha bem a calhar à covardia de Teodoro, que pede para ser considerado velho e que Sócrates continue o elenchos com Teeteto.

Hoje vemos figuras públicas falando com pouca confrontação: youtubers, pseudo-filósofos, eleitores e professores dizem concordar com 80% do que o guru ou o presidente fala, mas são incapazes de pegar os 20% nas mãos e analisar. Eles não analisam ideias e então não formulam uma posição. Assistem ao espetáculo das mercadorias-ideias mas, por quererem também desfilar, trazem uma posição já tomada, e com elas só fingem se comprometerem.

Outro dia um professor que sempre reclama do “Escola sem partido” me disse que não ensinava Marx nas aulas pois “as pessoas estão tomando tudo partidariamente.” Não! Ele não ensina Marx porque ele não sabe Marx. Caso soubesse, algo o moveria a falar, não importa o que mais acontecesse. Ele apresentaria a teoria da fetichização da mercadoria, e experimentaria as proposições dela na conversa com os alunos. Ele viveria a filosofia, e atacaria quem tivesse que ser atacado, defenderia com justeza quem tivesse que ser defendido. Sem fazer isso com as teorias, com que justeza alguém ataca ou defende o guru e o presidente eleito?

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3 thoughts on “O espetáculo dos covardes e ignorantes

  1. Não sei porque a crítica única direta ao presidente eleito. As idéias da esquerda até agora estão todas corretas?

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