O homem, um ser de família

Neste ano, 2016, foi lançada “Amoris Laetitia: Exortação Apostólica Pós-Sinodal”, escrita pelo Papa Francisco. Este é o resultado dos sínodos, reuniões de bispos, ocorridas nos dois últimos anos. O tema destes sínodos foi a família. No texto o Papa apresenta, como não poderia deixar de fazer, uma visão de homem, atrelada a uma visão de família.
 
A Igreja é como uma avó, que tem um olhar antigo, tradicionalista, mas ao mesmo tempo disposto a compreender as mudanças do seu tempo. Reposto por essa exortação está que o casamento trata-se da união de um homem e uma mulher, pois apenas eles dois, juntos, são capazes de fecundidade. Assim, estão excluídas uniões entre pessoas do mesmo sexo. No entanto, mesmo rígida, a avó continua sendo avó. Papa Francisco entende que a família que é possível de se encontrar no mundo não corresponde ao modelo da Igreja e do evangelho: casais divorciados, em que, frequentemente, uma criança passa a ser criada por apenas um dos pais; casais que coabitam sem terem contraído matrimônio; pais que fazem usos de substâncias tóxicas; casais que deixaram de frequentar a Igreja; etc. A Igreja deve acolhê-los todos, pois sua missão é não apenas doutrinar, mas também acolher e aliviar as dores. Sem falar que ela deseja o desenvolvimento de todos os homens, e não fará a exclusão de ninguém.
 
A que visão de homem se deve essa posição? O homem é uma criatura, que trabalha e coordena as coisas do mundo. Para que ele não sentisse sozinho, Deus lhe deu uma mulher, com quem ele se uniu. O matrimônio é assunção pública da união entre o homem e a mulher. Essa união é o compromisso de enfrentar o desafio de amar e ser amado pelo outro, cuidar e ser cuidado por ele, envelhecer junto dele (“gastar-se”, como está na exortação). Esse compromisso de fidelidade é a imagem da fidelidade de Deus para com o homem. Por isso, dificuldades de diálogo, dificuldades financeiras ou problemas advindos de hábitos pessoais recebem orientação.
 
O homem é um herói, ao manter seu compromisso, mas para isso, não conta com suas próprias forças. O Espírito Santo lhe dá uma força. Em suas Confissões, Santo Agostinho falou da dificuldade por que passou quando jovem: estando noivo, não conseguia deixar de desejar outras mulheres. Ele esforçava-se, sofria, mas não conseguia se conter. Depois veio a perceber que o homem que pretende lutar contra um vício do espírito e um mau-habito do corpo, contando apenas com as próprias forças, é incapaz de vencer. É preciso pedir a ajuda de Deus. Deus é, então, a fonte da força que permite ao homem manter-se no compromisso com Ele, consigo próprio, com seu cônjuge e a sociedade, a qual ele está construindo apresentando sua própria família.
 
O homem exerce sua vontade sobre si mesmo e o mundo. Contudo, não pode considerar-se autônomo e soberano sobre a criação. Regras de vida colocam-se para ele. Conforme o espírito do Antigo Testamento, regras de vida servem para evitar que se viva uma vida que leve à morte, como a escravização dos outros seres e o deixar-se escravizar pelos próprios impulsos. Ao homem é esperado o auto-governo, e também lhe é oferecida uma estrutura além dele. Um cônjuge não toca o âmago, a alma do outro. A relação de ambos é de ternura, olhar atento para as necessidades e anseios do outro. Mas cada um tem um espaço intocado, que é para o encontro com Deus.
 
Um pai, um filho, um marido, um irmão têm necessidades de coisas, e impacientam-se com os comportamentos e os “tempos” diferentes daqueles com quem eles convivem. Deus acolhe incondicional, irrestrita e gratuitamente. Filosoficamente, o que esta teologia está dizendo é que a cada homem é oferecida a ideia de que há algo maior do que ele próprio e do que qualquer outra coisa que este homem conheça, e que este algo é uma espécie de Outro que o observa, com ele se importa e dele cuida.
 
O homem foi gerado e, no casamento, gera uma nova vida. A família é aberta ao mundo, não fechada. Diferentemente do narcisista, que acredita bastar-se a si mesmo, o casamento e a fecundidade são a doação do dom da vida, que cada homem um dia recebeu. Não é estar guardando um sentimento, estar ressentido. O ressentimento isola o homem e o faz condenar aqueles com quem ele ele diverge, ao invés de permitir que ele aceite o direito deles de também viverem neste mundo. Pode-se estar ressentido com um cônjuge, e com ele não conseguir conversar. Pode-se ser o ressentido que na cabeça possui uma ideologia, por exemplo o cristianismo enquanto ideologia, e condenar quem é apontado como desviante do ideal. Como diz o Amoris Laetitia, o homem deve aceitar o homem, e querer o melhor para ele, assim como a Igreja deve fazer.
 
Esta ideia de melhor baseia-se na busca do homem em ser menos mortal e mais imortal. Por isso ele deve constituir família e gerar frutos. Que ele faça opções pelo permanente, e rejeite o transitório, deriva que ele deva unir-se a outra pessoa, com pretensões de que isso seja pela eternidade, e que o homem não se dê a práticas que tornem a sua vida algo corriqueiro e banal.
 
A relação entre o homem e o mundo deve espelhar à da Igreja com ele: deve-se exercitar a aceitação da vida, em suas diferenças e limitações. Esta exortação toma o homem como algo inspirado no divino. Considerar esta ideia está para além de preocupar-se com a existência deste divino. Em um contexto pós-nietzscheano, a vida é entendida não como busca por autoconservação, mas como vontade de potência e amor fati. No entanto, falar contra o desperdício da vida é falar contra a falsa liberdade do homem atado a um de seus impulsos: o impulso do descarte. O uso descompromissado e o descarte compulsivo de relações e pessoas não têm nada a ver com a vida pujante e afirmativa que Nietzsche defendia.
 
O Papa e Nietzsche querem tirar o homem da escravidão e do solipsismo desumanizadores.
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2 thoughts on “O homem, um ser de família

  1. Historicamente a igreja não comunga com o casamento do mesmo sexo – e teologicamente também – devido a sua base platônica a partir do neoplatonismo de Santo Agostinho. Mas Francisco também sabe que a religião não tem mais o espaço no mundo que teve no passado. Nietzsche resumiu tudo em uma frase: “Deus está morto”. Ora, essa frase simplesmente diz que Deus não possui mais a importância na sociedade e não dá mais as cartas na vida das pessoas. As cidades não se formam mais ao redor de uma igreja. Está aí uma prova geográfica incontestável. Ninguém hoje decide se vai ou não fazer compras consultando Deus. Não mesmo. Todo mundo consulta a carteira, o saldo da conta, o limite do cartão, ou a amiga que tem carro. Deus não está mais na jogada, e Francisco sabe disso. Ele sabe que não pode ignorar isso, e que também pouco adianta tentar forçar uma entrada de Deus novamente em campo (como tentou Bento XVI de forma desastrosa). Francisco tentar fazer com que a Igreja dance conforme a música, pois no fundo, é isso que restou a ela… e ele sabe muito bem!

    1. A Igreja tem sido mais pragmática, procurando apontar problemas e oferecer soluções. Mas, é claro, tudo o que ela faz é baseado nas suas doutrinas. E não acho que a Igreja esteja decadente. Ela afirma a própria tradição, e tem festejado a popularidade entre os mais jovens.

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