O lugar da Filosofia no ensino médio: possíveis limites e possibilidades para a prática docente

Muito se especula acerca da prática docente e isso não se limita apenas à questão do ensino da Filosofia, mas às outras disciplinas, tomadas em conjunto. Diferentemente destas, que já possuem uma forte tradição no currículo, como a Matemática ou, dentro das humanidades, a História, o ensino da Filosofia tem dado seus passos iniciais rumo ao amadurecimento em que os cidadãos têm visto cada vez mais sua importância na formação de uma sociedade democrática. Veremos a seguir como se dá, mais especificamente, esse desenvolvimento e as discussões que o envolve, inclusive como o senso comum se relaciona a esse contexto.

A Filosofia caracteriza-se pela pluralidade de seus discursos. Cada filósofo elaborou o seu pensamento dentro de uma determinada época, isso é bem nítido dos pré-socráticos à filosofia contemporânea. Há uma importância de peso no fato de o aluno do ensino médio se deparar com essa diversidade de posições a fim de compreender não apenas como os alicerces do conhecimento humano foram construídos ao longo da História, mas já para compreender que o embate de posições também é algo importante para a democracia. Tese, antítese e diálogo são fundamentalmente importantes para a compreensão e resolução dos mais variáveis problemas com os quais nos deparamos. Por essa razão, dentro dos limites e ainda pequeno reconhecimento, como o docente deve proceder para cumprir, além do que exige os planos curriculares, essa função?

Um dos desafios para o professor é apresentar a História da Filosofia dentro de seus importantes aspectos conciliando, entre isso, o pequeno tempo semanal destinado para a sua aula e adequando-se às exigências da escola. O caráter dificultoso da Filosofia que inclui uma demanda por maior capacidade de abstração faz que ela se torne uma disciplina ainda mais superficial, ainda que seja uma realidade das demais disciplinas, e o docente se sente pressionado, a fim de despertar maior interesse em seus alunos, a relacionar os conteúdos com o cotidiano de cada um deles. Desta forma, o professor busca relacionar principais tópicos da História da Filosofia a exemplos próximos da realidade que seus alunos vivem, mas isso fornece um forte risco: o risco de a aula de Filosofia se desprender de seu principal objetivo tornando-se um debate aleatório até mesmo sobre uma questão histórica ou social que cabe à História ou à Sociologia discorrer sobre a tal. Isto é, temos uma exigência de que, dependendo da circunstância, pode ter níveis de dificuldade diferentes, o professor relacione principais problemáticas da sociedade atual às propostas de reflexão que os filósofos nos apresentam.

Vemos que, assim, o historicismo não deixa de ter a sua importância para o ensino da Filosofia e, vale também incluir, para a atitude inicial do filosofar. Ele dispõe grande material de pesquisa para compreendermos a questão sociocultural do homem que o predispõe ao ato do filosofar. Porém, a Filosofia não deve apenas prender-se ao historicismo e nem cair em um grande relativismo de opiniões. Uma admiração ingênua nos leva a quatro importantes atos do filosofar: a problematização, a conceituação, a teorização e a argumentação, ou seja, essa admiração ainda não é o filosofar, mas um largo passo para ele. Aristóteles não nos diz no início de sua Metafísica que a filosofia nasce do espanto?  Quando o homem se admira, recai em si, sobre aquilo que o permeia e sobre sua própria condição concomitante de sujeito e objeto de conhecimento? Questionando, o homem alcançará a “negatividade”. Um período crítico, de derrubada de valores, mas marcado por uma afirmação anterior. Essa negatividade, essa ruptura com o dogmatismo, é a marca da Filosofia desde a Grécia Antiga até os tempos atuais.

Assim, diferentemente das outras disciplinas, a Filosofia caracteriza-se pelo questionamento da chamada “tese geral”. Esta é dotada de três valores: um gnosiológico, isto é, daquilo que concerne ao conhecimento das coisas; um ontológico, que concerne a tudo aquilo que é, e um axiológico, ou seja, que concerne aos valores que nós atribuímos a essas mesmas coisas, objetos de nosso conhecimento. O físico ou o historiador, por exemplo, não questionam a tese geral. O professor de Filosofia assim fazendo mostra que o historicismo não deixa de ser muito importante para a aula de Filosofia, mas apenas ele não é suficiente para dar conta da compreensão da dimensão existencial na qual o homem está lançado.

Por outro lado, como realizar isso diante de um quadro tão conturbado em que o professor está inserido? Tendo que sempre arcar com as tarefas burocráticas que a escola lhe impõe? Desde preencher a popular lista de chamada até entregar as notas no prazo? Algo que, até mesmo, o impede de elaborar uma avaliação aos moldes que o conteúdo lecionado exige? Tudo isso tem sido alvo de bastantes discussões e propostas de método didático têm sido levantadas, como a de Silvio Gallo, que concebe que ensinar a Filosofia é ensinar o ato do filosofar e defende que esse ensinamento deve dividir-se em quatro etapas, sendo elas (1) a problematização inicial; (2) a investigação dos problemas; (3) a criação de conceitos e (4) a socialização de conceitos. Tudo isso, claro, tendo em vista o já apresentado, não deixa de ser alvo de objeções muito compreensíveis.

Logo, tendo em vista a discussão apresentada, podemos passar até a dar ainda mais razão à famosa afirmação de Kant: “Não se ensina filosofia, mas a filosofar”. As aulas de Filosofia podem servir, assim convenhamos, como um passo primordial para uma vida que sempre coloque a tese geral em jogo. Ela não tem apenas a função de tornar visíveis os alicerces do conhecimento humano, mas, sobretudo, tornar mais nítida a própria dimensão existencial do homem. O professor, nesse caso, é um mediador desse processo não apenas ao introduzir os seus alunos à sistematicidade que a própria Filosofia exige, mas para dar um passo inicial a uma compreensão mais clarificada de nossa própria condição. Claro, ainda engatinhamos, e demandas que busquem aprimorar o espaço da Filosofia no currículo escolar devem sempre ser bem-vindas.

Bibliografia

COSTESKI, Evanildo; SOUZAVinícios Rocha de; FICKVera Maria Soares. Epistemologias e Tecnologias para o Ensino das Humanidades. Fascículo 3 – O ensino de Filosofia. Fortaleza: Tiprogresso, 2009.

BORNHEIM, Gerd A. Introdução ao Filosofar. Porto Alegre: Editora Globo, 1983.

VIEIRA, D.M. Uma introdução à Filosofia para melhor nos entendermos. Disponível em: <<http://>>. Acesso em 29 de maio de 2016.

Graduando em Filosofia pela UFRRJ. Pesquisador em Filosofia da Ciência, com ênfase em Karl Popper. Atualmente pesquisa a importância da noção de verdade objetiva para a filosofia da ciência popperiana. Interesses em Física e história da Ciência, principalmente na Física Moderna, com ênfase na Teoria da Relatividade. Grande admirador do existencialismo francês.
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5 thoughts on “O lugar da Filosofia no ensino médio: possíveis limites e possibilidades para a prática docente

  1. Interessante, de fato filosofia não se resume à história das ideias. Filosofia é atividade que cabe estimular para saber o que fazer com sua história.

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