O mistério da vida

O homem é constituído em uma troca de ressonâncias entre dois pólos, formando uma esfera. Estes pólos virão a ser o homem e aqueles entes que lhe são fundamentais. Na apresentação de sua esferologia, o filósofo alemão Peter Sloterdijk fala da criação do homem, por Deus.

Conforme está no Gênesis, o homem foi criado em duas etapas: na primeira etapa, o criador é um ceramista, excepcional, porém não mais do que um ceramista; já a segunda etapa guarda um mistério, que é propriamente o lance divino. Da argila adamá, retirada do solo, foi moldado Adão.

Adão foi moldado, contudo, de forma a que seu interior fosse oco. Para este interior, as vias nasais foram deixadas livres. Neste interior não entrará um ar qualquer: a criatura só desperta com a segunda, e misteriosa, fase da criação, que é a recepção do hálito de vida. O homem é uma vasilha com um complemento espiritual.

O homem passa a existir junto com o Deus, não apenas porque o ceramista passa a existir ao concluir uma obra, mas porque Deus está naquele sopro emprestado ao homem. Entre eles, sem dúvida, a relação é íntima e primeira.

No livro Sabedoria, do Antigo Testamento, entre os capítulos 13 e 16, há um comentário a respeito da insensatez do homem ao sentir-se capaz de criar de objetos com vida, esquecendo-se do Artífice. O fogo, as águas e o céu são belos e poderosos. Mas são criações do Artífice. Eles não devem ser adorados, tornados deuses, pois suas qualidades não vêm deles mesmos. Os homens que os adoram devem ser repreendidos. Uma repreensão maior, contudo, merecem aqueles que adoram coisas mortas.

Que coisas mortas são estas? O Artífice faz coisas vivas. O homem participa do vivo e, produz coisas para a fruição dele e de quem mais é vivo, como sua esposa, seus filhos e seus animais. No entanto, ele dá de produzir coisas que ele espera que tenham vida por si só. Ele dá de querer produzir a vida. Para estes casos, a Sabedoria vem lembrar que o que ele produz são coisas mortas, e que é Deus que pode vir e enchê-las com o sopro.

O marceneiro extrai a madeira, a prepara e produz um barco. Com a sobra da matéria-prima, ele faz uma figura humana ou animal. Põe este objeto na parede do barco, tomando-o por um ídolo. Com o barco, lança-se às ondas encrespadas do mar, orando a um ídolo de madeira mais frágil do que o barco. A sabedoria de Deus está na criação do mar, da madeira, do homem, da técnica deste de fabricar o barco e de fazê-lo deslizar incólume pelo mar. Mas o homem não a percebe.

O mesmo pecado comete o oleiro que faz um boneco de argila e o adora. Ele não reconhece que ele próprio é feito de argila, e que um dia voltará a sê-lo. O sopro que o enche lhe foi emprestado, e um dia será retirado. Ele não pode passar esse sopro adiante, para ter com um objeto a mesma relação que ele deveria ter com Deus.

O homem participa de alguma coisa, da qual é tributário. A Bíblia quer retirar o direito dele de criar vida, justamente para que ele não se autonomize a ponto de romper aquela relação. Sem esta relação, o homem, na presunção de que é capaz de criar vida, cria sua própria solidão. Ou cria idolatria, pela sua propensão a fetichizar as coisas. No fundo, ele gostaria de ser seu próprio deus, e não responder mais a nada.
Fazemos parte de um mistério. A vida é um mistério. Deveríamos fruí-la, cuidar dela. Entendo que isso está de acordo com a colocação de Heidegger de que o homem não é um animal racional, mas algo lançado para fora e, portanto, mais próximo do divino.

Não somos o divino, mas somos vizinhos do ser.

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