O não-ser e o eu que se suicida

O jovem estuda para o Enem. O homem volta do trabalho. A rotina empresta um sentido à vida. Mas cada uma dessas pessoas tem suas horas de parada. Quem as vê pensa que está tudo bem, ou seja, que a rotina voltará para elas. Então “E se eu morresse?” passa-lhes pela cabeça.

Byung-Chul Han, em “Sociedade do Cansaço”, fala da ameaça que vem do próprio eu. “Como ele foi se matar, assim de repente? Trabalhava e estudava!”. O mal não foi causado por um agente externo. Mesmo que um estudante sofra bullying, a compreensão que atualmente se tem do mal é que algo de errado ocorreu com a própria pessoa, inclusive secundarizando um ataque externo.

O que pode ter havido de errado? Han fala sobre uma coação de ser eu. Meu patrão e meu carrasco não são mais uma outra pessoa. Eu mesmo me cobro desempenhos e escolhas renovadas (inclusive e principalmente escolhas existenciais!). Eu mesmo me agrido, caso eu não corresponda às minhas expectativas. A mãe, o valentão e o chefe não são mais fortes sobre o eu do que eu mesmo.

O outro, aquele que desafia o eu, obriga a deslocar-se, pensar outras coisas. Mas agora não há mais não-eu, só eu-eu. Se todo ser é o eu, não há mais ser outra coisa. Estar cansado da cobrança autoimposta de ser eu leva a não querer mais ser, pois, repito, não há mais ser que não seja eu.

Heidegger entendia o ser como a questão fundamental, porém abandonada, da filosofia. A questão não era sobre “ser isto” ou “ser aquilo”, mas sobre ser, aquilo que permeia tudo. O homem, porém, toma a si mesmo como o palco do acontecimento de tudo, inclusive de si mesmo. Ser, para o homem, é exclusivamente ser humano.

O contraponto do ser é o outro, o não-ser. Platão, em “O Sofista”, segue o caminho proibido por Parmênides de atribuir ser ao não-ser. Este filósofo considerava o não-ser indizível e impensável. Platão, contudo, pela boca do Estrangeiro de Eleia, chega à ideia de que o não-ser é e, portanto, é dizível e pensável. O não-ser é o ser diferente. Não-ser uma coisa não é ser nada, mas ser uma outra coisa.

Aproveitando isso para os personagens do começo deste texto, colando o ser ao eu, o cansaço do eu leva a que se coteje deixar de ser. Mas se o não-ser for tomado parmenidicamente, o que se está cotejando é o nada. Para quem está nessa situação, é dificílimo falar sobre o que se quer fazer. Apenas dizem “quero deixar de ser.”

Por outro lado, tomar o não-ser como ser diferente, mas ainda preso ao eu, permite que se pense em ser um eu diferente, fazer mudanças no eu. Muita auto-ajuda é escrita nessa linha.

Agora, se além de se tomar o ser diferente, entende-se que ele se desvincula do eu, chega-se ao ser outro. Com isso, faz-se a retirada de si mesmo, pelo pensamento, do eu e vai-se na direção do outro, e depois se retorna ao eu. Quem pode ser o meu outro? Um animal. Uma mulher. Uma mãe. E quem pode ser o outro da vida? A morte.

O outro desafia o eu. A morte desafia a vida. Percebe como isso pode enriquecer nossa experiência dessas coisas?

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