O não-vício do Pokémon Go!

Baixei o jogo e estou jogando. Muitos dos meus colegas professores ou não fizeram o mesmo. Mas há também aqueles que resistem a isso. Minha amiga e companheira professora Dulcinéa Mendes disse não querer jogar o Pokémon Go. Há resistências a esse e outros  jogos, assim como há resistência ao uso da tecnologia. Em geral o argumento ideológico ou embasador é o do vício. A tecnologia seria algo viciante a ponto de prejudicar as pessoas como o vício do álcool ou das drogas. Mas isso não é verdade. A tecnologia não vicia. Vamos entender isso.

Para fugir do senso comum e problematizar a questão – função primordial dos intelectuais e professores – recorremos a história para entendermos porque a tecnologia não vicia. Isso não é tarefa  fácil, pois o senso comum é sedutor!

Quando o químico francês Antoine Laurent de Lavoisier (1743-1794) – ou simplesmente Lavoisier como ficou mundialmente conhecido – expressou sua lei maior, ninguém imaginava que ele se tornaria o pai da química moderna. “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Essa frase de Lavoisier não marcou apenas a história da ciência e da química, mas marcou toda a história do ocidente. A ideia do mundo em constante transformação tomava o lugar do mundo como algo com início, meio e fim.

Lavoisier deu a punhalada final na teologia, que já vinha perdendo força, e preparou terreno para que posteriormente o alemão Friedrich Nietzsche dissesse sua frase clássica: “Deus está morto”. Um mundo em que nada fosse criado não precisaria de divindades. Após um princípio as coisas iriam se transformando e criando novas coisas. Mas a discussão teológica não cabe aqui, nosso interesse é o da história da ciência e da tecnologia.

Foi com base nessa ideia de constante transformação de Lavoisier que a tecnologia montou suas estruturas. O positivismo também bebeu nessa águas com a noção de progresso, e posteriormente progresso científico. Em outras palavras a tecnologia tem que ser algo em constante transformação, o que explica bem o seu funcionamento. Nos últimos 100 anos tivemos mais transformações tecnológicas do que nos 5 mil anos anteriores. Isso porque a tecnologia tem que se transformar constantemente.

Essa constante transformação é o oposto do vício. Este é justamente algo em que a situação não apresenta transformação. Um viciado em álcool bebe constantemente durante muito tempo. O usuário de drogas também. Consome as vezes diariamente e por anos, até o golpe final. A tecnologia não permite esse consumo constante por prolongado período. O Orkut foi uma rede social de sucesso há 8 anos atrás. Hoje há uma geração que nunca ouviu falar de Orkut. O Facebook já começa a perder terreno. O mesmo acontecerá com o Pokémon Go. Por isso ele vicia. Ele não pode!

A tecnologia por sua constante transformação não permite o vício.

Licenciado em História pela UFRuralRJ e Especialista em Ensino de História pelo Colégio Federal Pedro II. Professor de História da rede pública no Rio de Janeiro. Pesquisa história antiga, especificamente Jesus Histórico, judaísmo, Judeia Romana e Cristianismo Primitivo.

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2 thoughts on “O não-vício do Pokémon Go!

  1. Hugo, será mesmo que a tecnologia é o reino da transformação? Certamente a inovação é um dos pilares do funcionamento da nossa sociedade de mercado, mas será mesmo que as mudanças tecnológicas ocorrem em proporção a impedir ou ao menos inibir consideravelmente o vício? Pense nas redes sociais. Se olharmos nossa cultura contemporânea, veremos que as redes sociais vieram para não só ficar como também continuar! E de um ponto de vista empírico o número de pessoas que não conseguem ficar fora delas a ponto da própria permanência nelas ser abalada pela desconsideração com a vida ”real” também é considerável, hein? E os games? Novas plataformas, categorias e títulos de games são criadas a cada mês. Mas a gente muito bem o quanto um gamer vem se assemelhando a um ”maconheiro quinzenal”. Ora, não é este o caso da maioria das grandes categorias de coisas as quais chamamos tecnológicas?

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