O problema do Papa Francisco no pós-pandemia

O Papa Francisco enfrentará talvez aquele que seja o maior dilema teológico do seu pontificado quando a pandemia passar: o que fazer diante da vida como algo meramente biológico? Talvez esse também seja o maior dilema teológico da história contemporânea da Igreja.

Foucault foi o pensador que através dos estudos nos mostrou como a modernidade envergou o Estado para políticas pró-corpo. Enquanto na Idade Média, por exemplo, um Rei poderia ordenar a matança de pessoas e até mesmo enviá-las para a morte, como fazia com os cavaleiros, na modernidade a política se tornou a arte de preservação da vida biológica. A isso Foucault chamou de “biopolítica”, ou seja, a política de proteção e preservação dos corpos através de ações estatais.

Agamben, ao ler Foucault, dividiu a vida em dois conceitos: vida ética, e vida nua. A vida ética seria, por exemplo, essa vivida pelos cavaleiros na Idade Média, onde os valores eram o que realmente importava. Ao irem para uma batalha, eles não temiam “perder a vida”, pois, para eles, a vida não era a vida biológica, mas sim a vida ética. Em outras palavras, ao morrerem em uma batalha eles estariam realizando o grande feito de se viver: ter uma vida ética, de glórias. Ora bolas, nós, ao lermos as histórias dos cavaleiros, nos perguntamos como eles eram capazes de sacrificar suas próprias vidas, como teriam tamanha coragem. Mas porque nos perguntamos isso? Simplesmente porque para nós modernos a vida não é a vida ética, mas sim a vida nua, ou seja, a vida biológica. Nesse caso, o que importa é preservarmos o nosso corpo, a nossa existência enquanto um ser vivo.

A Igreja resiste bravamente – como um cavaleiro! – a entrada da modernidade. Durante décadas, Papas, Bispos e padres insistem dogmaticamente na proibição do uso da camisinha. Mesmo sabendo do potencial destrutivo da AIDS, e de que o preservativo é o meio mais eficaz de sua prevenção, a Igreja diz não ao seu uso. Isso se dá porque para os padres a vida não é a vida nua, mas sim a vida ética. O importante não é a preservação do corpo, da vida biológica, mas sim a preservação dos princípios éticos e morais. A camisinha permite a relação sexual com diversos parceiros, e a Igreja considera isso como uma imoralidade.

Francisco se vê agora diante de uma pandemia que empurrou a Igreja para uma mudança de posicionamento: a da aceitação da vida como sendo a vida nua. Os padres passaram a não conceder a unção aos enfermos com coronavírus, e a realizarem missas sem a presença dos fieis. Tudo isso com o objetivo de preservar a vida… biológica. Que loucura, disse Agamben. Justamente quando temos um Papa chamado Francisco que isso vem a ocorrer. Francisco não era aquele que cuidava dos pobres e doentes? Que ironia do destino essa!

Agora que a Igreja aceitou a vida como meramente biológica, não há mais impedimento para liberação do uso da camisinha. Se os padres não podem dar a unção dos enfermos por questões de preservação da saúde, os mesmos também precisam liberar a camisinha por questões de preservação da saúde dos fieis. Como Francisco lidará com tudo isso não sabemos. Mas é fato de que ele precisará fazer uma grande manobra teológica para explicar essa guinada religiosa da Igreja, e para responder a Agamben, que me parece querer ser para o Vaticano aquilo que Sócrates foi para Atenas: uma incômoda mosca!

Gostou? Compartilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.