O que é ser um bom professor?

Com carinho para as colegas professoras Flávia, Maize, Priscila e Carol.

O resultado desastroso da educação brasileira mais uma vez constatado através do Ideb 2015, divulgado ontem pelo Inep, traz à tona uma velha discussão: precisamos de bons professores. O discurso do bom professor está na boca do governo, da sociedade, dos especialistas e dos próprios professores. Os alunos também tem cobrado de suas escolas que lhe exponham a bons professores. Mas afinal, sabemos ou não o que é um bom professor.

No meio do século passado as escolas normalistas ao fazerem seleção para seu Curso Normal apresentavam uma lista com uma série de regras: não pode ser casada; deve ser virgem; apresentar boa aparência; ser educada; etc. Em uma época em que o Curso Normal era realmente concorrido – cerca de 400 candidatas por vaga – havia apenas uma certeza entre todos: apenas as melhores entrarão.

O arrocho salarial produzido pelo governo militar e continuado pelos governos pós redemocratização de esquerda e direita desconstruíram esse sistema que seleciona nossos mestres. A carreira se tornou pouco atraente – R$ 13,00 a hora de trabalho não paga nem um prato feito – até chegar ao ponto que chegou hoje, se tornando muito mais um bico do que uma profissão. Em várias partes do Brasil o magistério já é apenas isso, um bico. Prova disso é que o próprio IBGE ao realizar a pesquisa do PNAD não classifica mais os professores como sendo uma profissão fazendo parte do ensino superior. Não é possível fazer isso devido a disparidade de salário dos docentes com as outras profissões que possuem a mesma formação que eles. A classificação do IBGE sobre a média salarial do brasileiro em início de carreira já é a seguinte: profissionais com nível superior ganham em torno de R$ 5 mil; profissionais com nível médio técnico R$ 3 mil; e professores R$ 2 mil. Isso porque tratamos pela média, ou seja, há lugares no Brasil que o professor ainda ganha apenas o salário mínimo.

Diante desse quadro que parece irreversível, e o é ao menos a curto prazo visto que qualquer reação do governo não leva menos do que 30 ou 40 anos para surtir efeito, o que realmente precisamos ter em mente para podermos pensar em voltarmos a ter bons professores no Brasil? O que seria o tal do bom professor?

Três pontos são fundamentais no bom professor.

  1. Possuir domínio do que ensina. Isso é fundamental e é o basicão. Não se pode esperar que o professor ensine algo que nem ele mesmo sabe. Não podemos querer um país onde nossos alunos sejam leitores assíduos se os seus professores não o são. Como esperar que o aluno seja um bom escritor se o seu próprio professor não escreve sequer um texto bobinho de 20 ou 30 linhas. Quando temos uma geração de formados nas faculdades de educação da vida – que estão mais para Uniselvas – que temem uma prova de redação ou questões discursivas em concurso público é porque algo vai de mal a pior. Não dá. Realmente é impossível esperar que o professor ensine ao aluno algo que ele mesmo não sabe. É esperar o coelho sair da cartola ou o Papai Noel aparecer no dia 24 de dezembro. Só mesmo por meio de mágica!
  2. Possuir cultura geral. O professor é antes de tudo um mestre. É exemplo, serve de modelo. Num passado nem tão distante todos queriam ser professores. Era para muitos um projeto de vida. Mas diante do que os professores se tornaram hoje, chega a ser pecado exigir de uma criança que queira ser professor. O magistério se tornou um grupo de pessoas ganhando mal, morando mal, sem carro ou com um carro popular, se vestindo mal, etc. Gente feia que não fala uma língua estrangeira, não vai ao cinema, teatro ou museu, que nunca fez uma viagem internacional. Em outras palavras, o magistério é hoje uma profissão que não acompanha a vida cultural do país, do seu Estado, ou mesmo da cidadezinha do interior. O professor precisa ter cultura geral, estar integrado na sociedade, isso porque o professor não é um mero consumidor de cultura, ele é um dos poucos que produz cultura, e o faz dentro da escola com seus alunos. Enquanto os professores se parecerem com lavadeiras e boias frias, nada funcionará. Duvidam? Estou sendo conservador? Preconceituoso? Então qual seria sua reação se o médico ou o juiz parece um boia fria? Uma lavadeira? Não é questão discriminação, mas participação social.
  3. Ser ousado e autoritário. O ensino e o saber são pautados desde sempre numa relação de hierarquia. Ninguém para pra ouvir os ensinamentos de uma pessoa se tiver plena convicção de que aquela pessoa sabe menos do que você próprio. É questão de lógica – coisa que falta no ensino brasileiro – já exposta acima: ninguém ensina aquilo que não sabe. A tarefa de ensinar é uma tarefa ideológica sim. Ideológica no sentido de que vai retirar de você um conhecimento que você acha que é o correto, e irá inserir outro, esse sim o correto (ao menos deveria). Ou seja, é uma relação em que se medem as forças, onde é preciso ser autoritário, mostrar seu poder, e ao mesmo tempo ser ousado. Ensinar é quase como uma tarefa bíblica: fazer o camelo passar no buraco de uma agulha! E isso é possível. Mas exige ousadia do professor. Exige que ele provoque seus alunos, os confronte, os coloque contra a parede, ou tire de sua situação de conforto, só faça pensar, cause espanto, choque, horror, temor, medo, mas que no fim seus olhos brilhem com a satisfação do conhecimento. Professor que permite que seu aluno entre na escola de uma jeito e após todo um ano letivo saia do mesmo jeito, não obteve nenhum sucesso. A transformação mão aconteceu. Afinal, não é isso que tanto dizemos ser o papel da escola, transformar a vida dos alunos. Então é isso, se ele entra e sai da mesma forma, não houve nenhuma transformação.

Parece besteira tudo isso que eu disse, mas já foi assim num passado recente, e ainda o é em todos os países vizinhos. Temos que começar a caminhar para voltar a ser assim, ou vamos continuar a amargar o fracasso educacional.

OBS: O texto é simples, de fácil leitura. Claro que pra quem possui formação, cultura mínima, e inteligência. Mas percebam bem que irão aparecer pessoas que não possuem esse pré-requisitos, e aí… vocês verão.

Licenciado em História pela UFRuralRJ, cursando especialização em Ensino de História pelo Colégio Federal Pedro II. Professor de História da rede pública no Rio de Janeiro. Pesquisa história antiga, especificamente Jesus Histórico, judaísmo, Judeia Romana e Cristianismo Primitivo.
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7 thoughts on “O que é ser um bom professor?

  1. Excelente texto, meu caro amigo Hugo. É o mínimo que um professor deva ter, pois temos por obrigação nos capacitarmos cada dia mais e mais. Pois só com formaçao intelectual e vivência, conseguiremos causar mudanças em nossos alunos.

    1. Sabemos da necessidade da vivência e da capacidade de transformação da educação. Mas essa transformação exige do agente transformador uma bagagem cultural e intelectual que lhe dê os mecanismos necessários para realizá-la. É isso que os professores não entendem. Professor que é raso feito tábua não preenche aluno!

  2. É fato, que nós professores não somos valorizados pela sociedade. O triste é ver alguns colegas de profissão não dando valor a própria profissão. Não se impõe como profissional. Sempre tem aqueles que dão um jeitinho p tudo. Alguém vê um médico receitando um remédio para seu paciente e junto dando o dinheiro p que o mesmo possa comprar o medicamento???? A RESPOSTA É NÃAAAAAAAO!!!
    O que vejo, são muitos colegas se virando com seu dinheiro para comprar materiais, que deveríamos receber do governo e achando normal (o que discordo e não faço) . Eu ficaria aqui a tarde toda dando exemplos parecidos…
    O professor só será reconhecido qd compreender sua importância para o desenvolvimento do país. Enquanto não nos valorizarzarmos, não lutarmos por nossos direitos, não terá governo e muito menos sociedade que reconheçam o verdadeiro valor desse profissional!!!
    Qt a pedagogia atual, muito mimimi, totalmente mundo da moranguinho, uma utopia. Enquanto os professores tiverem uma visão fantasiosa da educação, será esse vexame.
    O professor precisa dominar sim o assunto que irá abordar, p isso ele irá ter de estudar, além do domínio do assunto precisa mostrar sim que há uma hierarquia em sala de aula. A verdade que os educandos qd sentem segurança no domínio que seu professor tem no “conteúdo” abordado e que ele domina sua turma, a aula flui.

    1. Não preciso nem comentar. Sua última frase resume tudo: ” A verdade que os educandos qd sentem segurança no domínio que seu professor tem no “conteúdo” abordado e que ele domina sua turma, a aula flui.” O aluno não é bobo. Ninguém o engana!

  3. Também temos a famosa boa vontade que atrapalha bastante. Só ter boa vontade não basta! Ótimo texto! Obrigada por dedicar. Beijos

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