O que eu aprendi no Impeachment?

Quando o movimento pelo “Fora Collor” começou, não tínhamos sindicados nas ruas e muito menos os chamados “trabalhadores”.

A coisa toda apareceu em colégios da dita e cantada “classe média”. Não tinha conotações econômicas, embora a questão da “tomada da poupança” estivesse ainda no ar, fomentando a mágoa dos próprios eleitores de Collor. O movimento tinha clara conotação, ao menos no início, um tanto que udenista, ou seja, contra a corrupção – um movimento com tino moralista. Não à toa, as grandes figuras da oposição, na época, eram os que apareciam como paladinos da honestidade: Covas, Suplicy e Lula. O próprio PT era visto por muitos do PMDB e por Brizola como udenista. Só depois, quando o barco começou a correr, é que veio a avalanche anti-Collor, mobilizando todo mundo, ou quase, e então as coisas se somaram e a questão moral se mesclou com questões outras.

Olhando por essa via, as coisas com Dilma não se passaram de modo diferente. Desde o início, o anti-petismo apareceu por conta da corrupção do PT. Ninguém fez nada contra o PT senão o próprio PT. Tanto é que nos primeiros momentos a oposição das ruas, mais ou menos apartidária, despontou como sendo uma raiva contra a corrupção, tipicamente de classe média. Também um udenismo, mas sem qualquer possibilidade de catalização pela esquerda, já que o PT havia tragado quase toda a esquerda para a corrupção, e a parte que não foi acabou se imantando a ele por inúmeros mecanismos, inclusive psicológicos ou simplesmente de medo de isolamento. E nisso o PSOL e Ciro Gomes perderam suas chances, se é que, com suas doutrinas socialistas meio carcomidas, teriam alguma.

Com qual movimento aprendi mais? Foram aprendizados diferentes. Mas, com o segundo movimento, o “Fora Dilma”, aprendi algo muito fecundo: as pessoas individuais, não filiadas a partidos e nada ricas podem fazer a diferença. Pode-se fazer a diferença com um diploma de uma boa escola na mão. Pode-se enfrentar o poder político por meio da escolarização bem sucedida, pela competência. Isso ficou claro para mim com a atuação, em todo o percurso do Impeachment, da minha amiga e colega (como professora universitária) Janaína Paschoal. O dia em que ela disse na frente da senadora Gleisi o “não me calo”, e mostrou que, como mulher ali, mera pessoa, não iria abaixar a cabeça diante dos que, uma vez no poder, querem oprimir os que estão fora do poder, aí eu realmente vi o quanto vale estudar.

Janaína vinha participando do movimento contra a corrupção nas ruas. O pedido de Impeachment veio de sua própria cabeça, após um reunião com a família, que sabia o que poderia vir pela frente e, após ponderação conjunta, a apoiou. Teve a sagacidade de entrar com o pedido de Impeachment na hora certa, apostando no racha entre PT e PMDB dentro do governo, o que logo se verificou e fez, então, o processo andar como andou.  Enfrentou a raiva dos colegas e inclusive de ex-professores. Preparou-se como nunca e foi aos poucos tomando a liderança do processo, tendo como corrimão de apoio Miguel Reale e Helio Bicudo – juristas de primeira linha. Torrou boa parte de seu salário nisso. Mas, enfim, venceu, e me deixou ver algo no qual eu acreditava, mas ainda não tinha tanta fé: a competência ajuda mesmo a cidadania no que esta pode ter de radical. Que nós professores e filósofos possamos aprender de fato isso, no qual dizemos acreditar.

Ninguém enfrenta Janaína, mesmo cansada, num debate jurídico-político. E isso por algo que é a sua competência de se colocar numa causa moralmente correta, e com os instrumentos corretos. Meu amigo e petista histórico, hoje falecido, Alberto Tosi, disse em livro que tinha orgulho de ter participado das Diretas Já, e de ter tido a sorte de ver Lula se eleger! Eu tenho a sorte de poder ter visto mais que o Impeachment de Collor, Pude presenciar o papel de uma simples professora uspiana, uma mulher com quarenta anos somente (uma moça!), enfrentar uma presidente da República munida de poder e dinheiro, e derrubá-la. Deveríamos homenagear nossa democracia por ela poder nos dar isso de presente, sem qualquer uso da força, sem qualquer intervenção das armas. Há sim o que comemorar, mesmo nessa crise econômicas desgraçada.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 28/08/2016.

PS: sei que um petista não presta principalmente por conta dele dizer o que Janaína mesmo disse, que recebeu 45 mil reais para o processo do Impeachment. Ora, nenhum professor universitário que vive de salário, com ela ou eu, tem dinheiro para começar a viajar para Brasília toda semana e pagar custos de um processo. 45 mil não pagou nem um mês de processo. Janaína colocou dinheiro do bolso nisso tudo. E isso porque disse para todos que não era tucana, que a oposição tucana era fraca. Mas, enfim, acusações de gente do PT, atualmente, temos de desconsiderar. Mensalão, Petrolão, obstrução da justiça por Lula e Dilma etc jogaram o partido no lixo. Os petistas destruíram o que construíram.

Filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ
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2 thoughts on “O que eu aprendi no Impeachment?

  1. Professor. Admiro seus textos, e esse, também, traz boas perspectivas, sobretudo no que tange ao processo do indivíduo ali, impulsionado por sua competência, se contrapor ao efeito manada. A professora Janaína merece respeito. A minha objeção à sua pessoa se faz no fato, justamente contrário do que o senhor mencionou no texto. Ela sempre coloca o processo de impeachment como de natureza política-jurídica, e não o contrário. E isso, professor, é determinante. Pois com base nisso, ela, professora livre-docente e doutora em Direito Penal pela USP,se esquiva em enfrentar o debate jurídico-penal.

    “Questionada por senadores, Janaína diz que processo de impeachment é político e jurídico”
    http://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2016/04/28/questionada-por-senadores-janaina-diz-que-processo-de-impeachment-e-de-natureza-politica-e-juridica

    Abraço!

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