O que se tornou o magistério no Brasil?

Há um exemplo empírico que nos ajuda a entender a questão. É o vídeo do MEC sobre o Novo ensino Médio.

Observem o vídeo da propaganda do Ministério da Educação (https://www.youtube.com/watch?v=7_Fdhibi0yQ). Há um fato primordial nesse vídeo que diz muito sobre as relações de trabalho no mundo moderno, e em especial as profissões da época contemporânea. Vários jovens expressam seus planos para o futuro. Um quer cursar jornalismo, outro design de games. Há aquela que quer o cursinho técnico para arrumar um emprego, e há uma moça (não à toa!) que deseja ser professora. Todas as falas estão corretas, mas a fala da menina que pretende ser professora traz algo a mais. Ela diz que quer ser professora, “pois é isso que ela AMA”.

Esse vídeo faz o raio-x perfeito do magistério no Brasil, e explica bem o porque de tão baixos os salários dos professores. A resposta a essa questão é simples: o magistério se tornou um sacerdócio!

Há várias teses para se explicar os baixos salários dos professores no Brasil. A esquerda evoca uma relação de dominação para dizer que os políticos não querem professores bem pagos para que estes não formem cidadãos efetivamente atuantes. A direita prefere ir pela via de que os professores são mal qualificados e por isso ganham mal. Há também uma tese freudiana de que o professor é aquele que presencia os momentos mais delicados e íntimos da criança, e esta acaba por revidar quando já adulta. Também há outra tese, a do ônus político, que diz que um investimento no salário do professor não traria resultados imediatos a curto prazo para nenhum governante, então os mesmos preferem deixar a questão de lado. Eu estou convencido que todas essas teses não tem valor no Brasil atual. A explicação correta para isso tudo vai por outro caminho.

Desde que os militares iniciaram o arrocho salarial do magistério na década de 70 esse movimento nunca teve fim. Ele foi e é tão intenso e duradouro, que quebrou a profissão a ponto de tirar dela esse status, o de profissão, e jogá-la para o campo do “sacerdócio”. A sociedade brasileira trata hoje o professor como sendo um herói, um guerreiro, um batalhador, ou seja, um sacerdote. E como bem sabemos, sacerdote não tem salário, ele vive de ajudas de custo!

Parte considerável do magistério, em torno de 80%, também vê no magistério uma ocupação sacerdotal. Há professores que creem realmente que o professorado precisa ter vocação, lecionar com amor, e ter o dom. Alguns vão além, a ponto de sugerir como causa do fracasso educacional brasileiro a “falta de amor dos professores para com o que fazem”. Mal sabem esses professores que é esse tipo de visão e pensamento que impede que o magistério volte a ser visto e tratado como profissão, e assim seja valorizado.

Nossa sociedade absorveu em seu ethos social a compreensão de que ser professor é dedicar-se ao máximo ao que faz, com amor e garra. Só que essa visão é a compreensão típica do que é o sacerdócio, e não uma profissão. Uma profissão no mundo moderno, capitalista e de sociedade de mercado, não envolve amor ou garra, mas sim bons salários, carreira, e condições de trabalho. Diante disso, ninguém mais se incomoda com os baixos salários e as péssimas condições de trabalho dos professores, ao contrário, para continuar sendo um sacerdócio é preciso justamente que haja esses “sacrifícios”. Caso não haja, não poderá mais ser um sacerdócio.

E assim vamos completando cinco décadas de arrocho salarial do magistério. E esse quadro, se tornou irreversível. Não se reverte mais. Pois o magistério deixou de ser profissão no Brasil, e se tornou efetivamente um sacerdócio. Ao menos o magistério em nível superior ainda resiste a isso. Dúvida do que eu disse? Faça um teste muito simples. Escolha meia dúzia de professores amigos seus e pergunte a eles o que é ser professor, o que é o magistério. Eles responderão que é ter amor, dom, vocação. Duvido que eles respondam que é uma profissão.

Licenciado em História pela UFRuralRJ e Especialista em Ensino de História pelo Colégio Federal Pedro II. Professor de História da rede pública no Rio de Janeiro. Pesquisa história antiga, especificamente Jesus Histórico, judaísmo, Judeia Romana e Cristianismo Primitivo.

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4 thoughts on “O que se tornou o magistério no Brasil?

  1. Hugo, adorei!
    Ser professor é exercer uma profissão e não um sacerdócio. E pensar no magistério como um sacrifício é ir contra a tudo que conquistamos de forma politica e social.

    1. O magistério é profissão. Merece salário, condições de trabalho e carreira. Tem que ser isso. Não há como ser o contrário.

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