O Rio de Janeiro me respondeu – ou qual o sentido da história

Com a proximidade das Olimpíadas Rio 2016 nenhum assunto tem sido mais comentado nas redes sociais e jornais do que os jogos na dita Cidade Maravilhosa. Muita coisa tem chamado a atenção do mundo, como a péssima infraestrutura das instalações da Vila dos Atletas, ou as constantes ameaças de bomba – quase uma brincadeira de mau gosto cotidiana de algumas crianças!

Na última semana escrevi sobre o momento pelo qual passa o Rio de Janeiro e os problemas que tem vindo a tona em torno da realização dos jogos. Com o texto intitulado “O que aconteceu com o Rio de Janeiro” (http://filosofia.pro.br/1287-2/) levantei a tese de que o grande problema do Rio foi a retirada da capital em direção a Brasília, e que isso gerou problemas profundos e incontornáveis após mais de meio século. Mas parece que minha resposta não foi suficiente à indagação que levantei no título da questão, e o próprio Rio de Janeiro – e também as Olimpíadas – resolveram responder a está minha indagação.

Não foi por e-mail, carta, telegrama, fax, e muito menos uma coruja de Hogwarts, mas a resposta veio por meio do ensaio da abertura das Olimpíadas no Maracanã. A coreografia preparada – que não foge ao clichê comum mostrando a natureza, os índios, carnaval, samba, blá, blá blá – apresentou aos presentes uma cena inusitada. Sexo? Não. Efeitos especiais de ultima geração? Também não. Uma performance espetacular como a feita em Pequim 2008 para acender a pira olímpica? Muito menos. Tratava-se de nada mais nada menos que a encenação de um momento onde uma mulher (Gisele Bündchen) sofria um assalto perpetuado por um menor de idade – o chamado pivete!

Parece difícil de acreditar, quase impossível, mas a organização dos jogos mostraria como marca do Rio de Janeiro e também do Brasil uma cena de violência. Tratava-se – pois a encenação foi excluída após protestos – da banalização da violência e sua aceitação como sendo natural e como sendo uma marca presente na vida dos cariocas. Em outras palavras, o Rio de Janeiro confirmava aquilo que eu havia levantado no texto anterior acerca da aceitação do status de cidade derrotada, incapaz de se reerguer e dar a volta por cima.

A naturalização da violência se tornaria marca dos jogos. E é justamente a naturalização o oposto da história. Cornelius Castoriadis já dizia que a história é antes de tudo criação, ou seja, transformação, movimento, ação. A aceitação do status quo produziria sentido oposto ao da história humana ao longo dos séculos. Não haveria sociedade nem Estado se a história fosse tomada como naturalização do que está posto, sem nenhuma ação ou transformação em direção do novo.

Dessa forma, tomo a história como sendo a desnaturalização do mundo. Essa é a definição pessoal de história que utilizo e devo admitir, tem forte inspiração na definição de filosofia do meu amigo filósofo Paulo Ghiraldelli Júnior, que entende a filosofia como a desbanalização do banal. A função da história é mostrar que as coisas nem sempre foram do jeito que são, sendo fruto da construção humana através do tempo, ou seja, desnaturalizar aquilo que estaria arraigado no cotidiano. Dessa forma, cabe a história a tarefa de desnaturalizar a violência do Rio de Janeiro, demonstrando que a cidade já foi segura e tranquila, e que esse quadro pode sim ser revertido.

Talvez reste a história fazer o papel de amigo e consolar o Rio de Janeiro, ou melhor, fazer o papel de psicólogo e tentar fazer a cidade erguer a cabeça e dar a volta por cima. Afinal, a violência nem sempre foi assim, precisamos desnaturalizá-la.

Licenciado em História pela UFRuralRJ, cursando especialização em Ensino de História pelo Colégio Federal Pedro II. Professor de História da rede pública no Rio de Janeiro. Pesquisa história antiga, especificamente Jesus Histórico, judaísmo, Judeia Romana e Cristianismo Primitivo.
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