O show nosso de cada dia

“O fato de já não ter contestação conferiu à mentira uma nova qualidade. Ao mesmo tempo, a verdade deixou de existir quase em toda parte, ou, no melhor caso, ficou reduzida a uma hipótese que nunca poderá ser demonstrada. A mentira sem contestação consumou o desaparecimento da opinião pública, que, de início, ficara incapaz de se fazer ouvir e, logo em seguida, de ao menos se formar.” (Guy Debord. A sociedade do espetáculo/Comentários sobre a sociedade do espetáculo. p. 176)

O filósofo quer a verdade. Ele não obedece a poderes, não se curva a riquezas, não corresponde a aprovações. Caso o faça, abandona a filosofia.

O espetáculo, noção do Debord, é a dança das coisas do mercado, incluindo o poder político, diante dos homens que, afinal os produziram. Estes homens tiveram suas produções separadas deles mesmos, e feitas partes de uma produção maior. O mercado ganha vida própria. Os produtores, destituídos do seu trabalho, ficam mortos. Ou melhor, são vivos apenas enquanto vendedores do seu tempo.

A esteira de produção fordista alcança todos os lugares, chegando ao indivíduo que está separado dos outros individuos. A esteira que carrega a produção e o consumo não é a mediadora entre o homem e a realidade, como se se trabalhasse para viver. Ela é a realidade. O espetáculo é a vida, e tudo o que se faz é para ser exibido nela.

Nas redes sociais, compartilhamos fatos junto de opiniões junto de fotos nossas e da manifestação neonazi em Charlottesville junto do comentário do Karnal. Fazemos parte do espetáculo. E para ele damos o que tem valor de troca: minha foto em um lugar bonito tem mais valor do que a minha foto em um lugar feio. Ainda há um mercado para a minha opinião e minha foto petista. O neonazismo quer expandir-se, deixar de ser coisa outsider para ter um nicho no espetáculo. E o petismo luta para não ser outsider. Não tem nada de novo ou radical em ser nazi ou comuna.

Obedecemos a esse poder. Somos especialistas de uma certa produção de nós mesmos. Especialistas são o produtores que agradam ao espetáculo. Mesmo que o critiquem, não o negam. O que é evidente é soterrado pela avalanche de selfies-opiniões. O que exige pesquisa e coragem para se dizer, de tão particular que é, perde lugar para o que é repetido. O especialista não diz a verdade. Ele diz a verdade que é espetáculo, que vende. A verdade mentirosa que queremos ouvir.

“Intelectuais” midiaticos de esquerda há algum tempo dizem que a violência urbana existe porque há desigualdade social. Isso nos anestesiou a ponto de nos fazermos especialistas da miséria, pessoas que lêem, falam sobre isso e não cuidam efetivamente do homem caído no chão. E nos faz comprarmos um messias.

Alexandre Frota, outra mercadoria, apareceu esses dias dizendo que a justiça no Brasil é uma bosta, pois a deputada Maria do Rosário colocou-se contra a fala do deputado Jair Bolsonaro sobre a redução da maioridade penal, em uma discussão sobre os crimes do adolescente “Champinha”. Um ator do espetáculo tem um Jesus, o outro tem um messias.

Heidegger disse que representamos o mundo, fazemos dele imagem, visão de mundo. E nos fixamos, representamos a nós mesmos. No espetáculo, também o show de nós mesmos,somos eleitores, militantes, consumidores, informados, etc. Não há autenticidade. E, “se está no Facebook, é verdade”.

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