O sofrimento dos psicólogos

A personagem da novela procurou um coach, a fim de tratar uma dificuldade no relacionamento com seu namorado. Na história, essa dificuldade era devida a um abuso sexual sofrido por ela, quando mais nova. O Conselho Federal de Psicologia reclamou, dizendo publicamente que o tratamento de problemas psicológicos ocorre somente por um processo psicoterapêutico. Também apontou a especificidade do coaching na melhoria de problemas comportantais relativos ao trabalho, escola, etc. No Facebook ocorrem muitos comentários acerca deste assunto.

Como o homem se vê, hoje? Como uma profundidade sofredora? No início da psicoterapia, era assim que ele se via. Bem, “profundidade ” e “sofredora” são termos irmãos, pois o sofrimento é justamente girar em torno de um mesmo assunto ou sentimento. E alegria é poder agir.

Pegando pelo filósofo coreano – alemão Byung Chul Han, o modo com que se sofre hoje não é o de se estar impedido de fazer algo, por uma censura que, inconsciente que está, atua como uma fobia, uma paralisia ou uma repetição de fracassos. No neurótico, sua inação corresponde à ação do corpo estranho, censura.

No sofrimento de hoje quem age é o homem, não um corpo estranho: somos convocados a agir e observar estritamente nosso próprio desempenho. Somos chefes de nós mesmos. A depressão ou o infarto são doenças de parada obrigatória.

Por outro filósofo, Sloterdijk, sujeito é aquele que se auto consulta e então se autodesinibe. Ele encontra em uma voz interior o motivo e a suficiência da sua ação. A dificuldade de ser sujeito fica patente na alta procura de consultores e coaches, profissionais que farão as vezes daquela voz interior que falta à pessoa.

Por Han, estamos cansados do nosso eu, que é nosso chefe tirânico. Voltando a Sloterdijk, podemos dizer que aquela voz tiraniza porque não há um contraponto, um diálogo com ela. Não há um sujeito, ou seja, não há ação a partir de si mesmo, porque não há pensamento, conversa entre a voz que manda e a que pondera. Apenas há voz que manda e, então, a pessoa se cansa de si (no jargão de Han). Ela cansa de ter que responder a si, sem muitas vezes conseguir.

Neste sentido, o psicoterapeuta da vez é mesmo o coach. Ninguém, exceto os próprios psicólogos, se vê mais como portador de um mal que demora meses para resolver. Psicólogos e coaches aproveitam o surgimento de uma moça que foi abusada para voltarem a falar em “psicologia profunda”, com o intuito de demarcarem territórios de atuação. Mera polidez entre concorrentes.

A psicologia continuará como sempre (e como toda ciência e profissão): desenvolvendo suas propostas e recebendo demandas. Essa é a sua ação, e esse trem não aguardará os psicólogos que reclamam de quem não entra na sua.

Gostou? Compartilhe:

One thought on “O sofrimento dos psicólogos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *