O torso

O Rei Tritão, pai da Pequena Sereia, tem um belo torso. Uma mulher tem rosto, seios, quadris e coxas. O homem só precisa do torso.
 
O abdômen sobe até o peito, que precisa ser duro feito uma caixa. Esta caixa armazena lembranças de feitos passados. E é vazia, para ser enchida no momento certo, pela energia da ação guerreira.
 
Os ombros devem ser largos, para apoiar o braço esticado da mulher ou do amigo. O amigo vai além, e aperta o seu ombro, com a mão. A mulher apenas pousa o braço.
 
Ao lado do peito tem a grande região da axila. Área de pele macia, a que os pelos da axila, propriamente dita, tentam alcançar a fim de protegê-la.
 
A espada do adversário escolhe este caminho para o coração, pois é ao mesmo tempo curto e macio. Atingido, o homem cai de joelhos, e assume que pertence ao outro.
 
Abaixo se encontra a sequencia de costelas. Elas há em boa quantidade, indicando quantos parceiros suporta um homem.
 
Passear no torso de um homem é conhecer as histórias da sua vida de mortal. É perceber a sua fragilidade e, justamente por isso, a força que aquele homem já foi capaz de gerar e empregar.
 
Uma moça abraça este torso, e em qualquer lugar dele deita sua cabeça. Nenhum travesseiro aceita tão bem ser segurado e trazido de encontro à sua cabeça. E dá a sensação de posse.
 
Um rapaz abraça o torso, em agradecimento a tudo o que recebeu. Longe de querer possuí-lo, ao jovem também não preocupa ser aceito amanhã: se pôde abraçar o homem, é porque está tudo bem para continuarem.
 
Aquele homem depois sentará no sofá, erguendo o livro até os olhos. O rapaz verá a pele alva da zona axilar dele, e sorrirá.
 
Um homem procura reparar na zona axilar grossa de um outro homem que ao longe trabalha. E também no padrão dos pelos das axilas e do peito: mesmo conhecendo os próprios pelos, os de outro homem guardam uma assinatura complicada, um brasão.
 
Olha-se o rosto, os braços e as pernas. O torso se quer junto do próprio torso, para que aqueles vizinhos, finalmente e por um momento, habitem uma mesma casa.
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