Os comovedores

Hoje, o Padre Fábio de Melo apresentou-se no show “A estrada sou eu”, num ginásio próximo daqui. Só agora parei de escutar a música comovente.

Chamo-a assim ao lembrar de Agostinho que, nas Confissões, falou de um bispo que mandava recitar cânticos com o mínimo de inflexão de voz. A música deveria ser o menos comovente possível. É que o espírito seria seduzido pelos prazeres corporais, entre eles os do ouvido, fazendo a razão desviar-se do sentido das palavras.

A razão deveria voltar-se ao suprassensível. O eterno merece toda a nossa atenção, não o temporário.

É esse o sentido das recitações, dos cantos, dos rituais, enfim, da Igreja. O papa Francisco tem feito exortações sobre o cuidado com a Terra, incluindo o homem, criatura. A chamada Renovação Carismática, da Igreja, e também o neopentecostalismo, tem apostado em shows, para formar um público.

A TV Record, por exemplo, pela manhã e à tarde passa histórias de crimes, e à noite pastores dramatizando na sua pregação. As vivências das pessoas são tratadas numa dramaticidade.

Agora, escutar o Papa te faz pensar. É como escutar um professor: são frases com espaços de silêncio. Ler também é assim: a folha é branca, o espaço após cada frase vai sendo preenchido com pensamento.

Esse pensamento não é o da pessoa sobre si mesma. Ela não está sendo ganha por alguém que diz “exatamente o que eu precisava ouvir, sobre mim.” O pensamento é um ser levado para fora de si mesmo.

Em Platão, pensar é rumar para o conhecimento acerca do que é mais real, desvencilhado das experiências particulares de cada um. Essa é ainda a pretensão da filosofia, mesmo que parta das experiências particulares: ela não quer entreter, fazer rir ou chorar. Ela até pode provocar isso, mas almejando que a pessoa deixe o lugar do saber e pise no do não saber, que é o do espanto e o do olhar diferentemente as coisas.

Uma frase solta. um cliché, que é a forma em que se estuda, atualmente, faz a pessoa jurar que está pensando. A mesma pessoa jura que não há pensamento numa mulher nua. Bem, peço licença a Agostinho para dizer para uma mulher linda nua: “Meu Deus do céu!”.

Ídolos pregando sobre violências, golpes, prometendo que retornarão em 2018, como se fossem Jesus, são lances de um espelho, que quer te manter cativo e sempre igual a si mesmo.

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