Os ideais democráticos não são da esquerda

Os ideais de liberdade, igualdade e justiça social não são apenas bons, como também necessários. Quem os defende, geralmente, é a esquerda. Isso não significa que por isso a esquerda que nós temos também é boa e necessária. Na verdade, ela é ruim e desnecessária.

É ruim porque não sabe defender a liberdade, defende a forma errada de igualdade e não compreende o que é a justiça social. E é desnecessária porque não sabe fazer política sem roubar e não sabe reivindicar sem a militância cega.

No caso da liberdade de expressão, por exemplo, a esquerda não entende que devemos garantir (e na prática, nosso Estado busca garantir) a liberdade absoluta de discussão, e que isso não implica na não responsabilização pelo que se diz. Para a esquerda, a censura deve existir a priori.

Já em relação à igualdade, a esquerda acaba se atrapalhando com o conceito de justiça social e mistura tudo. A meritocracia é demonizada porque o que se defende não é uma igualdade de oportunidades, mas uma igualdade de realizações. Assim, toda desigualdade passa a ser vista como injusta do ponto de vista social. Ora, isso não é só uma burrice, é uma completa doideira! A meritocracia só existe com desigualdade. Mas para que essa desigualdade seja justa, é preciso que antes exista igualdade de oportunidades: todos devem ter acesso à educação, à alimentação, à cultura, ao convívio familiar, etc., para que a partir disso o indivíduo tenha condições parecidas com as de outros indivíduos de buscar o seu desenvolvimento pessoal — é aí que a meritocracia entra.

Nada disso é novo. Paulo Freire, Francisco Weffort, Helio Bicudo, Ivan Valente, Eduardo Suplicy e muitos outros intelectuais de esquerda participaram, nos anos 90, de um longo debate público em torno desses ideais. São esses ideais, baseados no melhor do liberalismo e da social democracia, que fundaram o PT. Mas por uma série de fatores, como a corrupção generalizada, a falta de democracia presente nos partidos políticos, nos sindicatos e movimentos sociais, e acima de tudo, pelo saber político substituindo o saber acadêmico dos militantes, todos esses ideais foram esquecidos. O que nos restou foi uma esquerda burra, autoritária, fascista e corrupta, que crê ser a dona de todos os valores liberais e democráticos.

Para você, que não estuda e que não entende nada do que lê, a não ser aquilo com o que você já concorda, um recado: estou muito feliz em ver as quadrilhas de esquerda sendo destruídas, e essa destruição não tem nada a ver com pobre pegando avião. Na verdade, a destruição completa da esquerda atual é a única solução para que os valores realmente democráticos que estavam submersos voltem a aparecer na nossa democracia.

Acadêmico de Filosofia pela PUCRS. Bolsista de Iniciação Científica do CNPq. Pesquisador colaborador do CEFA. Editor adjunto da revista Redescrições, do GT Pragmatismo e Filosofia Americana da ANPOF. Também é membro do GT da ANPOF “Semiótica e Pragmatismo” e membro associado da The Richard Rorty Society.
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2 thoughts on “Os ideais democráticos não são da esquerda

  1. Essas noções tem que ser vistas como elementos básicos de uma democracia. Nenhum partido tem direito de querer ser dono da liberdade ou da justiça social como o PT tá fazendo.

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