Os que não conseguem falar

Os jovens não mais possuem meios para lidar com suas emoções e experiências. Tudo é caso de polícia, médico e, mais recentemente, coach. Nada é caso de professor, sala de aula e estudo. Desde quando Deus nos ensinou que “no Início era o Verbo”, “meio” para se lidar com a vida não é outro senão a linguagem. “Haja Luz! E houve Luz.”, aparece no Livro de Gênesis. Mas aos jovens, o amor correspondido, o coração partido, a angustia de final de domingo são estranhamente tomados como propriedade privada do inefável. Ora, não se pode dizer faltar divindade à jovialidade, porque o mesmo inefável que cai nas suas mãos acaba parando nas redes sociais como mera fotografia e, dessa forma, como o decretadamente inominável após a confirmação de seus parceiros de Olimpo. “Sobre nada podemos falar. E sobre o que não podemos falar, todos os outros devem se calar”, dizem. Não podendo usar das infinitas prerrogativas da linguagem, não conseguem compreender que suas vidas são vidas oriundas de técnicas de autoprodução de nós mesmos. Jamais perguntem aos jovens o porquê dos gregos tomarem como bárbaros quem não falasse grego. Deuses… Mas que deuses são esses que nada podem fazer porque nada podem ordenar? Deuses! Mas deuses que não conseguiram suportar a escola. Deuses, todavia, que por terem fugido do aprendizado do “ler e contar” tomaram “problema” como sinônimo de “insolucionável”.

Isaias Bispo de Miranda – 10 de maio de 2018

Isaias Bispo de Miranda é violoncelista com formação na Escola de Música do Estado de São Paulo (EMESP). Graduando do bacharelado em Ciências e Humanidades e do bacharelado em filosofia, ambos na Universidade Federal do ABC (UFABC), estuda a obra do filósofo alemão Peter Sloterdijk pelo Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA), onde também é membro.

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