Para além da esquerda e da direita – ou é possível uma outra história de LULA!

Há algo sobre Lula que vai muito além daquilo que a esquerda e a direita querem falar. Hoje, quando Lula foi condenado em segunda instância a mais de 12 anos de prisão, e suas chances de ser novamente Presidente do Brasil ficaram ainda mais remotas, os dois campos políticos travaram uma guerra nas redes sociais. Apresentaram então para a maioria esmagadora da população, num país de fraca escolarização, duas narrativas ao mesmo tempo distintas e sincronizadas. Contudo, ambas são errôneas em partes, e a história não irá consagrá-las para além da conversa dos botequins de frente para os Diretórios e dos manuais nada corretos dos partidos. A narrativa sobre Lula, aquela bem elaborada, será bem mais complexa e interessante.

A esquerda pinta um Lula como sendo de um lado o salvador do Brasil, e de outro uma vítima do trio Moro-CIA-Globo. Lula seria o homem mais honesto desse país, e por isso o mais injustiçado de todos por ter sido condenado a prisão pelos crimes de corrupção de lavagem de dinheiro. Ao mesmo tempo, o próprio Lula se auto-proclama “o Mandela da América”. Ora bolas, Mandela nunca teve um Palocci da vida que entregou o esquema de dentro. Mas Lula é e sempre será – na cabeça do militante de esquerda, da moça do DCA da Universidade, e do velho sindicalista – um homem íntegro e honesto. Eis a história que se consagrará nos folhetins dos intelectuais da esquerda. Ah, só mais um detalhe: o vilão dessa história se chama “Sérgio Moro”.

Nas revistinhas do povo da direita, talvez não haja uma história muito bem bolada, já que pouca gente bem formada apóia – e com razão – alguma ideia da direita. Mas a narrativa não foge muito ao oposto daquilo que a esquerda diz. Lula é visto e descrito como um péssimo presidente, como aquele que inventou e inaugurou a corrupção no Brasil, como o maior ladrão da história do Brasil. Seu governo teria apenas “incentivado a malandragem” distribuindo dinheiro para aqueles que não têm muita afeição com o labor. O PT seria então antes uma gang corrupta, e Lula nada mais do que o líder desses gângsters.

Até aí tudo bem. O militante político faz o seu papel: repetir aquilo que o timoneiro manda. Se assim não o fosse, não existiriam mais partidos políticos, sindicatos, igrejas, etc. A lógica inaugurada na antiguidade é a do pastor x ovelhas. Em outras palavras, há sempre alguém que dá as ordens para um determinado grupo. Porém, o intelectual não pode ser nem pastor, muito menos ovelha. Ao intelectual cabe ser aquilo que Hegel definiu como sendo a filosofia, uma coruja, aquela que ao anoitecer lança vôo sobre pastores e ovelhas. Dessa forma, é preciso ir além da narrativa partidária. Essa sim pode nos levar a algum lugar.

Há coisas sobre Lula que a direita terá que engolir. Não há como negarmos que Lula venceu a pobreza e foi o primeiro trabalhador simples a ser eleito presidente desse país. Também não podemos negar que nenhum governo antes do seu fez tanto pelo pobre, pelo trabalhador, e pela classe média. Lula será lembrado pelo aumento da classe média, pela construção das Universidades, pela diminuição da pobreza, e por vários outros avanços sociais obtidos pelo Brasil em seu governo. Mas também há algo que a esquerda terá que engolir. Lula será lembrado por ter se envolvido em esquemas de corrupção, por ter aceito benesses de empresários e políticos, por ter feito alianças escusas, ter cedido a chantagens, e ter se envolvido num emaranhado de esquemas e mais esquemas ilícitos. Lula será o Presidente que tirou o Brasil do mapa da fome, mas também será o Presidente do Triplex. Lula será o presidente que mais valorizou o salário-mínimo, mas também será o presidente do Sítio de Atibaia. Lula será muito mais que a esquerda e a direita o pintam, isso para o bem e para o mal.

Daqui um bom tempo, um meio século, esse Lula será lembrado e estudado, será reverenciado e odiado. Mas acima de tudo, será exemplo do que fazer, e também do que não fazer. Essa será a história de Lula, onde a frase do Procurador Regional da República Maurício Gerun estará imortalizada: “Lamentavelmente, Lula se corrompeu”.

Licenciado em História pela UFRuralRJ e Especialista em Ensino de História pelo Colégio Federal Pedro II. Professor de História da rede pública no Rio de Janeiro. Pesquisa história antiga, especificamente Jesus Histórico, judaísmo, Judeia Romana e Cristianismo Primitivo.

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2 thoughts on “Para além da esquerda e da direita – ou é possível uma outra história de LULA!

  1. Ótimo texto, mas para ser perfeito há que se rever uma informação truncada e omissa no principal elogio que vc dedica a ele:
    ” Também não podemos negar que nenhum governo antes do seu fez tanto pelo pobre, pelo trabalhador, e pela classe média. Lula será lembrado pelo aumento da classe média, pela construção das Universidades, pela diminuição da pobreza, e por vários outros avanços sociais obtidos pelo Brasil em seu governo”

    Essa frase em si – “nenhum governo antes do seu fez tanto” – demonstra de sua parte, duas coisas: ou você odeia o Fernando Henrique Cardoso e seu governo, por isso omitiu propositadamente todas suas medidas econômicas sanadoras que colocou o país nos eixos através do Equilíbrio Fiscal, através do qual a inflação de 700% ao ano foi debelada para apenas 1 digito, além de benefícios sociais – como a Bolsa Escola, que depois no governo Lula se tornou Bolsa Família, que fez isso mais por esperteza, para capitalizar seu poder eleitoreiro, alegando que foi ele quem o criou e que infelizmente deu certo, num país de um povo muito mal informado e sem memória histórica.

    Ou você não sabe nada sobre seu governo, sem o qual o êxito do primeiro mandato de Lula não teria existido – a começar pela inflação baixa, a economia estável e suas benesses que começaram a surtir efeito ao longo dos dois mandatos de Lula e que começou a ser desconstruido a partir do segundo mandato, alcançando o auge da decadência e descontrole econômico total nos mandatos do poste Dilma, que foi apeada por esse motivo.

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