Pela justiça com as narrativas


Em tempos de terraplanismo e evanjeguismo é importante que existam bons divulgadores científicos. O pensamento mágico, que lida com fatos sem estabelecer conexões causais, e que lida com textos religiosos de forma literal e burra, precisa ser combatido. Nosso frágil capitalismo levou a perdermos industrias, o que levou à desvalorização dos saberes técnicos e isso, por sua vez, deu no abandono da escola.
A crença em líderes populistas, que levou milhares às igrejas caça-niqueis, também explica certas votações de agentes do governo. A eleição de Lula teve esse aspecto, embora ele mirasse no real problema brasileiro da miséria. Bolsonaro é um falso messias eleito para lidar com um falso problema.
Conhecimento correto e atualizado é fundamental quando se quer falar de ciência, política e filosofia. E também de religião. Repare que aqui comentei sobre a leitura errada de textos religiosos, e também usei a expressão “falso messias” para me referir ao Bolsonaro. Qual é o jeito correto de se ler a Bíblia? O que é o messias de um povo? Essas são coisas que também se estuda, para as quais também deve haver professores bem formados.
A boa formação de um professor diz respeito não apenas ao domínio de uma certa área de conhecimento, mas à cultura sobre outras áreas, e sobre a situação de sua própria área diante das outras. Perde-se quando não se tem um bom ensino religioso na escola, que mostre, com a ajuda da história e da filosofia, a especificidade epistemológica e o vínculo ontológico da Bíblia com o povo de Israel. Perde-se quando não se tem na escola, com a ajuda da sociologia e de novamente a filosofia, a observação de quanto o ideário cristão marcou nossa cultura e a nossa Constituição.
O ensino religioso não é um saber menor. E é útil para que se saiba diferenciar o discurso religioso do discurso que usa da religião para extorquir dinheiro e angariar apoio político. Outra diferenciação que se conseguirá fazer é entre o que um professor e um divulgador científicos dizem sobre a própria ciência e a importância do seu ensino e sobre a religião e a importância do ensino dela. É comum que estes dois últimos personagens não saibam que fazer com a religião, como se fosse isso algo mal resolvido para eles. A presença dos diferentes gêneros textuais na escola permite que sobre elas se adote, na relação pessoal com cada um deles, uma postura rortyana: não pretender dar conta, com uma só narrativa, das exigências de autocriação e de busca pelo que seria a realidade, e da busca pela verdade, do consenso e da justiça social. Cada narrativa, tratada com justeza, pode ter o seu momento em uma vida rica.

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