Por que a filha de Obama trabalha nas férias?

A filha de Michelle e Barack trabalha nas férias. Não entendemos isso. 

Os europeus trabalham muito, como os americanos. Também nós. Em termos de horas de trabalho, não há tanta diferença. O problema todo, que faz diferença, é o da existência da “cultura do trabalho” para uma classe média que, de certo modo, poderia adiar o trabalho e, no entanto, não adia. Isso sim é exclusivamente americano.

O estudante de classe média, mesmo que tendo pais com posses, trabalha parte das férias. Ora, isso é quase que uma instituição nos Estados Unidos. É inadmissível não querer ter “o seu próprio dinheiro”. Essa é a regra de ouro: é inadmissível não buscar seu próprio dinheiro. Alguns têm esse dinheiro como sobrevivência mesmo, outros, mais abastados, para pequenos gastos pessoais, mas o que não se verifica é a ideia de que os “negócios do pai” devem garantir o que se quer, menos ainda a ideia de se estar preso às diretrizes dos negócios do pai. Trabalhar na empresa da família não é alvissareiro, é um indicador de fracasso. Aliás, poucos pais aceitam isso. Dizem: “você é inexperiente, vá falir a empresa do concorrente, vá aprender, só então tente voltar”. Isso quando não é o caso do pai – como fizeram Bill Gates e Marck Zuckberg – não deixar sua fortuna predestinada aos filhos.

Há um “brio” de trabalhador nos Estados Unidos. A ideia do “work hard” não é um slogan, uma mera ideologia, é de fato um caminho sobre o qual se pode falar ou não em liberdade individual. Isso não se fez à toa, mas pela maneira como a América foi colonizada. As famílias foram para América para ficar. Não havia para onde voltar. “Voltar para a metrópole” sempre foi algo de comum de se ouvir em colônias francesas, espanholas, portuguesas e até inglesas, com exceção da América. Os americanos logo se chamaram de americanos. Eram fugidos da não-liberdade religiosa da Europa. Eram fugidos da não-vigência da liberdade individual da Europa. Eram fugidos dos costumes hierarquizados que impediam a aventura e a utopia. Os Estados Unidos nunca recebeu gente que iria “fazer a América” para voltar. “Fazer a América” sempre correspondeu a “ficar rico na América e lá permanecer”. Bastava descer num porto e escolher um local. Se o local não fosse bom, então, partia-se para o Oeste. Uma “reforma agrária” contínua e natural, mas não tão liberal quanto se imagina, pois protegida por West Point, uma academia militar que se fez no trabalho de ajudar o colono a se fixar.

A história da América é irreversível. Pode-se ter um Bush na presidência, mas a força dessa colonização recoloca um Obama. Talvez se possa a ter um Trump – Deus queira que não – mas a força da América recolocará as coisas nos eixos. O próprio Obama acredita nisso. É uma fé inquebrantável na colonização como criadora de uma Grande Nação. Para a filha de Michelle e Barack, trabalhar nas férias

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 05/08/2016

Filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ
Gostou? Compartilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *