Por que não pensar pelas aparências?!

Pensar a partir das aparências ou, como as pessoas falam, julgar pelas aparências, é algo tão delicado e contraditório para o senso comum, que não raro vemos as práticas inclinando-se para um lado e as falas tombando para o outro. Se alguma pessoa ousar dizer que os pensamentos nunca lhe foram perturbados pelas aparências de alguém, estará mentindo. “Tal pessoa tem cara de brava”, “tal pessoa tem cara de séria”, estas são as prosas mais inocentes que demonstram o que eu digo: pensamos a partir das aparências. O rosto fala, do contrário tais frases nunca seriam ditas e ouvidas por ninguém. O rosto recolhe uma riqueza indescritível de proclamações. Não só o rosto, mas também o corpo e tudo aquilo que o esconde e o encobre.

Neste momento, as falas cindem com a prática: “roupas não definem quem somos”, diria alguém. E nisso nada mais nos define, nada mais nos qualifica e nada mais somos. Neste ponto, viramos um sujeito abstrato. E logo as falas mudam de assunto e desconversam. O que está no pano de fundo desse raciocínio é a seguinte fórmula: “Não é porque eu sou A, que sou B também”. E aí a famosa frase emburrecedora “Não vale generalizar” se alia a este discurso. Pois, esta frase, voltando a nossa fórmula, explicita justamente a opinião de que alguns “A’s” são “B’s” e outros “A’s” não são “B’s”, mas isso nada diz de “A”, nem uma conexão necessária ou simplesmente uma relação, dando a entender que o predicado “B” fosse aleatoriamente distribuído entre os “A’s”, sem razão ou motivo algum e, por isso, não podemos inferir nada de “A”. É como se o indivíduo fosse autodefinível de uma forma radical, onde a este não possa ser atribuída nenhuma relação sociológica, psicológica ou cultural, ou seja, por nenhuma relação de coisas externas a ele próprio! Aliás, acredito que uma das razões para esse declínio do pensar sobre o aparente seja uma distorção da noção do indivíduo moderno, que se desvencilhou das sociedades estamentais, que caminhou para a realização da sua liberdade. Não é o indivíduo da modernidade o self made man? O próprio que se desonerou de todo o peso que o rodeava. Não são os piratas, neste ponto, a realização da individualidade? Aqueles sem pátria, sem terra, sem uma tradição para honrar? Claro que isto não implica numa irrelacionalidade do indivíduo com seu tempo e com seu espaço, com sua história e com sua cultura, e por este motivo isso se constitui uma distorção grosseira.

Também, identifico um segundo culpado por esta situação do pensamento: Mais de dois mil anos de platonismo permeando sutilmente a nossa cultura, espreitando o pensamento dos grandes filósofos, até daqueles que se insurgiram contra o próprio platonismo. Não à toa,  Platão é considerado o fundador do pensamento filosófico. Agora explico por que elenco o platonismo nesse quadro. Platão foi o primeiro a pensar que as aparências, ou seja, que a experiência sensível não possui o maior grau de realidade. Isso significa que existe algo mais real do que aquilo que os sentidos nos dão. Platão atribuiu às ideias como possuindo o maior grau de realidade e as aparências sensíveis são meras cópias imperfeitas das ideias. A realidade sensível é uma cópia das ideias, porque aquelas remetem-se às ideias. Mas são meras cópias, que em sua confecção herdaram uma cicatriz, uma falha, para não se confundirem com seu modelo. Por isso o filósofo, ou seja, o amante do saber, deve mirar sua atenção não para as aparências e sim para as ideias, para a investigação puramente racional. Por este motivo, temos a ideia de que a verdade, de que a realidade, se esconde por trás da aparência, portanto, cremos que a aparência não pode falar algo digno de credibilidade. Isso implica que qualquer relação que traçamos sobre a aparência não é tratada com a devida seriedade. Claro que isso também se trata de uma extrema deturpação do platonismo, claro!

Vou elucidar com um exemplo para que se entenda o que significa a irrelacionalidade do  indivíduo ou o não pensar sobre o aparente. Certa vez ouvi a seguinte frase: “Uma pós-graduação não significa nada”. Claro que uma frase ambígua feito essa pode significar qualquer coisa, e portanto até pode ser verdadeira, dependendo da intenção do falante, dado que hoje no Brasil, com as Unisselvas, qualquer um pode ter um diploma e de fato isso signifique pouco ou nada. Mas o que se quis comunicar não foi isto. O que se desejou passar foi o seguinte: não há nenhuma relação que a pós-graduação tenha com qualquer outra coisa, seja a inteligência, o esforço ou alguma habilidade específica, seja a leitura ou a escrita, a pesquisa, enfim, a pós-graduação é vazia de significados e incapaz de transformação. Pois o indivíduo passa por ela e, mesmo assim, depois de um ano ou mais, eu não posso inferir nada sobre ele em relação à pós-graduação, a não ser constatar o fato óbvio de que ele a fez. Isso exemplifica bem este pensamento, ou melhor, este não-pensamento. Pois é como se o verdadeiro indivíduo ficasse intacto no decorrer das nossas relações mundanas, resguardando sua essência, deixando-a inalterada. Como se fôssemos alheios ao nosso mundo na própria participação deste.

E é por isso que é preciso que retomemos a nossa antiga ideia, ou pelo menos em certo nível, de que a realidade se apresenta diante dos nossos olhos. Que não temos uma conspiração a cada esquina, tramando a nossa queda, que as coisas não são vazias a ponto de ninguém poder inferir nada sobre ninguém, a não ser o óbvio. Se admitíssemos que pensamos sobre a aparência e se déssemos a devida importância a isto, a nossa conversa seria muito mais rica e frutífera. Pois nós já pensamos pelas aparências, mas quando uma opinião nos desagrada, nós invocamos nosso platonismo torto para invalidarmos a opinião de incômodo. Portanto, cria-se um subterfúgio para o não diálogo e, principalmente, o não pensamento, pois, nesta situação, não pensar o aparente significa justamente não pensar.

Nicolas de Melo, formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas pelo IFSP. Nascido
em 27/08/1993. Membro do CEFA.

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