Por que o “Primeiramente, Fora Temer” não evolui?

Eu estava indo para o Rio, a partir de Niterói, usando barca. Peguei uma barca novíssima: bancos, paredes e chão brilhando. Ar condicionado. O vidro do janelão ao lado era perfeitamente transparente, parecia uma passagem livre para o mar. Tanta coisa nova, ainda havia um ar de barca antiga, daquelas feitas de madeira e ferro, não vidro e plástico. No banco da frente, vejo escrita a frase, à caneta: “Fora Temer”. Meu pensamento deixou de estar ali, e naquela paisagem.

Em sua entrevista para o Roda Viva, quando perguntado se apoiaria algum nome para o Congresso, no ano que vem, Michel Temer disse que não daria qualquer opinião, respeitando seu papel de chefe do executivo. Mas, logo após dizer isto, Temer fez uma ressalva: “A não ser que o pretendente diga ‘Fora Temer'”. Neste caso, Temer falou aos risos, ele diria que tal comportamento, vindo de uma pessoa a quem ele chamou por “rapaz”, não é compatível com o cargo. Em seguida, Temer voltou a dizer que não se intrometeria.

Quem diz “Fora Temer” demonstra um comportamento incompatível com o Congresso. Dizer isso para qualquer um na rua, que é o efeito pretendido com uma pichação, é um comportamento inadequado para o público. Algo está faltando nesta pessoa. Está faltando educação. O pretendente à presidência do Congresso pode ter uma vida política pregressa que sugira aptidão para o cargo, porém, ao dizer “Fora Temer”, ele se torna um rapaz, algo anterior a um adulto e aquém da liturgia da política institucional. Além disso, este limite em sua educação leva a um limite na cognição e consequentemente na capacidade técnica, pois raciocinar e agir bem requer cotejar diversas ideias, e não fincar pé em uma ideia preferida.

Alguns adolescentes insistem em empurrar suas pichações, e dizer que estiveram ali. Querem ser diferentes, reconhecidos em sua diferença, donos de lugares, reis em sua diferença. Não lhes importa se o lugar em que estão dê prazer a qualquer um que se sente ali e, portanto, leve a pensar em outras coisas, ou a pensar em nada. Eles têm horror a serem qualquer um, mesmo que seja para algo prazeroso.

Mais tarde, ainda no passeio de hoje, passei em frente à UNIRIO, na Praia Vermelha. Havia cartazes dizendo que o lugar está “ocupado”, e um grande cartaz dizendo quais eram as reivindicações dos “ocupantes”. A primeira delas era, adivinha? “Primeiramente, Fora Temer”. Imagine comigo se o Temer resolvesse dizer essa frase. Imediatamente ela sairia da boca dos que a dizem. Essas pessoas não gostariam que o presidente fosse o espelho do seu balbucio adolescente.

Parece que, diante do discurso bem construído que Temer sempre apresenta, muitos dentre nós estão identificados com a Dilma perdida. Sim, aquela frase é um choro, e ela está bem no nível da ex-presidente.

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