Porque Freixo perdeu as eleições? Ou, não foi a milícia que derrotou Freixo.

Crivella saiu vitorioso de pleito de ontem após quase 20 anos tentando ser Prefeito do Rio de Janeiro. Derrotou o PMDB de Paes, Pezão e Temer, e deixou o PSOL de Marcelo Freixo para trás. As análises que temos lido nos jornais e revistas na tentativa de explicarem a vitória de Crivella, ou a derrota de Freixo, já estão me causando náuseas. A falta de criatividade da imprensa e dos analistas é coisa de maluco! Dizer que foi um avanço conservador ajuda em que? E daí? A política funciona mesmo como um pêndulo: hoje conservadores, amanhã progressistas. Dizer também que foi a Universal quem deu a vitória a Crivella é cair num reducionismo tremendo, haja vista que se fosse assim qualquer candidato religioso se elegeria. Fato é, que muitos evangélicos não votaram no Crivella, e outros nem sequer foram votar.

A vitória de Crivella se deve muito mais as atitudes do Freixo do que as suas. Mesmo dizendo todo tipo de abobrinha e babaquice, agora e no passado, e a imprensa jogando pesado sobre isso, Crivella se elegeu. Freixo não foi derrotado pela milícia. Seguir por essa análise é valorizar mais a milícia do que ela realmente é na prática do dia a dia. Foi o próprio Freixo que se derrotou, e elegeu Crivella. Cabe registrar, que o grande vitorioso dessa eleição no Rio foram os brancos/nulos/abstenções com mais de 2 milhões de votos.

Esse 2 milhões de votos demonstram um fato que muitos ainda resistem em admitir, principalmente os políticos e partidos, que é a total descrença na política por parte do brasileiro. Esse sentimento só tem aumentado. Dois motivos ajudam nisso. Por um lado a Operação Lava Jato revela super esquemas de corrupção enraizados na estrutura do Estado brasileiro, com roubos e mais roubos na casa dos bilhões de reais. Por outro, o declínio do PT destrói um sonho de boa parte do povo brasileiro, e joga areia na esperança depositada em Lula e no PT. Só mesmo quem sabe o quão grande foi essa esperança tem a dimensão do tamanho da frustração e da revolta.

Esse descrédito pode ser confirmado pela vitória de Dória em São Paulo, e Kalil em Belo Horizonte. Vejam que este último era oponente do candidato do PSDB de Aécio Neves. Ou seja, nada te haver com ascensão do PSDB ou do conservadorismo. É na realidade uma revolta com a política e com os políticos, uma repulsa a todo tipo de promessa, das quais o povo já está cansado de ouvir a cada eleição, seja municipal, estadual ou federal.

O erro de Freixo e que levou a sua derrota não foi ter ficado contra a milícia, ou a favor do PT e de Dilma – contra o impeachment –, o erro de Freixo que levou a sua derrota foi ter politizado demais sua campanha. A todo o instante ele e seus correligionários faziam questão de colocar a ideologia em primeiro plano, e declarar claramente sua posição à esquerda. Ora, o carioca assim como o brasileiro pouco está preocupado com esquerda ou direita. As pessoas querem na realidade emprego, renda, segurança, saúde, educação, transporte, etc, etc. Se prender a campo político ou ideologia é coisa de intelectual limitado, partido político, sindicato, etc. Para governar um cidade como o Rio de Janeiro, pouco importa qual sua ideologia.

A politização excessiva do Freixo fez com que ele não conseguisse conquistar os 2 milhões de votos que disseram um não à política. Dória e Kalil percebera isso, e levaram a melhor. Ignorar esse fato é remar contra a maré. Observem as eleições ano a ano e percebam como o número de abstenções, brancos e nulos só cresce. As pessoas estão cansadas da política. O povo quer mais ação, e menos ideologia ou bandeira de partido. Sejamos sinceros e realistas: qual a diferença na saúde de um Estado como São Paulo, administrado pelo PSDB, para um como Minas Gerais, administrado pelo PT? Nenhuma. Em ambos os caso a saúde funciona muito mal. Qual a diferença do salário do professor nos 8 anos de governo FHC para os 8 anos de governo Lula? Nenhuma. Em ambos os governos o professor continuou ganhando uma merreca.

Pra fazer campanha e atrair correligionários a ideologia pode até servir para algo, mas para governar não serve pra nada. O brasileiro está seguindo um caminho já trilhado pelo americano e pelo europeu – sendo que por este bem menos – que é o seguinte: pouco me importa partido, ideologia ou campo político, o que importa é fazer as coisas acontecerem, fazer a saúde funcionar, a educação ser de qualidade, nos garantir segurança, e acabar com o caos nas grandes cidades. É isso gente. Freixo não se elegeu por causa da Universal ou da milícia, mas sim pela politização excessiva. Parte da população, e cada vez maior, que ações, resultados, e não política. E isso é bom, muito bom.

Licenciado em História pela UFRuralRJ e Especialista em Ensino de História pelo Colégio Federal Pedro II. Professor de História da rede pública no Rio de Janeiro. Pesquisa história antiga, especificamente Jesus Histórico, judaísmo, Judeia Romana e Cristianismo Primitivo.

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3 thoughts on “Porque Freixo perdeu as eleições? Ou, não foi a milícia que derrotou Freixo.

  1. Ótima análise! É bem difícil achar texto imparciais quando o assunto é política. Como você disse, eles priorizam a luta das ideologias esquerda X direita ao invés de emprego, segurança, saúde, educação, transporte…

    1. Não Cesar Roberto, ele perdeu por ideologizar a política. A sociedade atual entende a política como um campo de ação, e não mais de ideologias. Essa migração se torna clara. As pessoas querem saúde, educação, transporte, segurança, etc, e pra elas tanto faz se quem fornece isso é de direita ou de esquerda, mas tem que fornecer esses serviços. É isso que os políticos e os militantes não estão entendendo. A vitória do Dória mostrou isso empiricamente.

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