Presos num jogo de espelhos

Os jovens decidiam o que apresentariam na mostra artística da escola. Eles queriam algo sob a ideia de “não binarismo”: não são brancos, não são negros, não são gays, não são hetero, entre outros. Nem todos dizem isso, mas na hora de decidir uma apresentação, e em grupo, vieram com essa.

Eles comentam entre si essas coisas. Falam durante as aulas dos professores que falam mais do que sabem. Na mídia, palestrantes falam muito.Todos querem dizer algo sobre tudo, e dizer muito sobre uma coisa. Mas pouquissimo se sabe. Será que o homem, hoje, acha que as coisas irão bem se ele falar?

No mundo se fala muito. Não! O mundo é as muitas falas. E esse mundo tem problemas. Será que esses problemas se curam com mais falas? Preconceitos e conceitos agridem, mas eles só existem quando são falados. Então, a agressão deles, e a sua própria existência, parece se curar com mais falas.

A Bíblia é um dizer divino. É inspirada por Deus, na medida em que fala da criação e da ética que governa, e que deve permanecer governando, tudo. Escrever, falar a respeito ou procurar seguir a Biblia é falar com, junto com, Deus. E isso tem tudo para unificar os homens que o fazem. É uma chave para eles resolverem seus problemas. E sem dúvida, é o ambiente onde esses problemas existem.

Quando foi desonrado por Agamemnon, e retirou-se para a sua nau, Aquiles entrou em um choro de cólera que só pôde cessar na presença de Tétis, deusa e sua mãe. Tétis veio até ele, para ouví-lo. Para Aquiles, não era necessário dizer as coisas a quem já sabia tudo. Tétis, então, disse que ele deveria dizer como tudo se passou, para que ambos soubessem. A partir disso ficou claro para ambos que o herói morreria cedo, porém seria eternizado pela glória.

Estavam bem os homens que estavam com os deuses, quem junto deles fala ou combate. Deus e deuses eram os nossos contrapontos. Quem nos criava problemas e nos tirava deles. O outro homem sempre pareceu a mesma coisa do que eu, em qualidade e limites de interesses e capacidades.

Pauko Ghiraldelli vem dizer que não temos mais o contraponto. Estamos entregues a nós mesmos, já que os critérios do outro são iguais aos meus. Não há a quem recorrer, para se ter certeza. Descartes deu o seu método, ou atitude de pensamento, para dizer do que ele tem certeza. Mas, como Heidegger faz dizer, essa atitude é a do palco doador da ontologia para o mundo. É criação de solidão, e de problemas sem saída. Desses problemas, talvez o maior é o muito falar e o pouco saber do sujeito.

Opiniões que os jovens ouvem são lançadas na sala de aula, onde justamente há outras. A sala de aula é mais para a reunião de opiniões do que para o reinado do saber do professor. Afinal, quem sabe?

Tudo é do indivíduo, desde a infinita disponibilidade de elementos para uso no estilo próprio de identidade, à também infinita demanda do mundo, para que cure suas dores. Ele faz afirmações, até um certo ponto. Os olhos dos outros são buscados, na expectativa de aprovação ou desaprovação.

O mundo de cada um está suspenso nesse jogo de espelhos. Por medo de quebrá-los, cultivamos a palavra “tolerância”.

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