Problemas do conhecer o outro

“Os gregos antigos tinham escravos.” Já escutei que isso depunha contra este povo, de tão rica vida política. Eu preferia dizer e pensar: “Eles são completamente diferentes de nós. Por isso eu prefiro não julgá-los, pois não tenho informações suficientes.”

Bem, hoje eu li:

“Um uso curioso, o qual subsistiu longamente nas casas atenienses, nos mostra como o escravo entrava na família. Aproximava-se-o do fogo doméstico; apresentava-se-o à divindade doméstica; vertia-se sobre sua cabeça água lustral e ele partilhava com a família de alguns bolos e algumas frutas. (…) Significava sem dúvida que o recém-chegado, estranho na véspera, seria doravante um membro da família, tendo sua mesma religião. Deste modo, o escravo assistia às orações e participava das festas. O fogo doméstico o protegia; a religião dos deuses Lares pertencia tanto a ele quanto ao seu senhor. Por este motivo o escravo devia ser sepultado no local de sepultamento da família.” (Fustel de Coulanges, A Cidade Antiga, p.94).

A família não era formada por laços de consanguineidade, mas por laços de adoração aos mesmos mortos. Homem, filhos, mulher e escravos reunidos num mesmo ritual pertenciam à mesma família. Obviamente havia diferenças de poder, como geralmente há, mas em função das regras que são comuns a todos e que organizam aquele grupo.

Ser escravo naquele contexto é bem diferente de ser escravo no Brasil até pouco tempo atrás. Também era totalmente diferente ser mulher, ser homossexual, ser heterossexual, ser homem, ser mulher, etc. Mas muitas vezes se insiste em olhar para o que não se conhece como se se o conhecesse, aplicando nele um saber exterior.

De onde vem o saber que se aplica na tentativa de se conhecer o outro? Deveria vir dele mesmo (um escravo na Grécia antiga falaria de si mesmo); na falta dele, viria de um próximo dele; faltando este, viria de livros. Quer dizer, sobre um escravo pode-se falar das suas condições de vida ou das suas experiências. No segundo aspecto pode se aceitar o “se assim lhe parece, assim você sabe disto”, dedutivel da frase “o homem é a medida de todas as coisas”, do Protágoras. Isso também se for dito pelo próprio escravo. Quanto a própria experiência ninguém diz que ele erre, embora ele possa descrever errado suas condições concretas.

Um conhecedor externo pode estar mais próximo da verdade quanto ao concreto e à experiência do escravo. A ciência se oferece como captadora dessas coisas todas. O que eu e você temos do escravo distante ou próximo (mas não tão próximo que possamos conversar com ele) é o que nos dão os livros. Mas os livros mesmo são estranhos a que supomos conhecer.

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