Psicanálise está morta!

[Assinado: Heidegger]

 

Você faz terapia? Gosta de confessionário, né? Pois saiba que há outras identidades entre psicanálise e religião.

Lendo o testemunho transiente, do Juliano Garcia Pessanha, deparei-me com um texto que foi apresentado no IV Colóquio de Heidegger, em São Paulo, 29 nov. 1998.

E, ao lê-lo, remeteu-me à memória frases estranhas que estão em moda ( seja em qualquer café filosófico ou em  boteco chique, pseudointelectual – tipo casa do saber) como  “dizer o inefável” ou “ isto é indizível”. Todavia, o mais estranho é que temos enormes bibliografias e palestras sobre o “indizível”.

Heidegger, sabemos, foi o precursor do velado e desvelado. A concepção do Presenti-ficar tem sentido de soltar, deixar, liberar para o interior do aberto. Assim, de forma sui generis, o filósofo alemão investiga o Fora e desvela-se no Dasein.  Todavia, o Dasein é mais íntimo da distância que da familiaridade (p. 120). 

Mas o que torna a psicanálise anti- heideggeriana? O vício desta de nomear, circundar com palavras, impedir o deixar-heideggeriano. É tentar instrumentalizar este fora e laça-lo com frases (ainda que um pouco caducas).

O aberto heideggeriano não permite uma experiência ensinável, enquanto instrumentalização de sujeitos. Ele acontece ou não.

Como seria, então, um instituto que formasse os profissionais do “inefável”? Teria, inegavelmente, que ser uma caricatura. Aqui recorro ao próprio Pessanha:

[…]   Dizer a alguém num instituto de formação profissional: “Primeiro você vai estudar direitinho a teoria do aparelho psíquico e das posições de Klein, depois vai decorar todas as fases do amadurecimento de Winnicott ou as estruturas de Lacan, e feito isso você precisa saber que quando estiver escutando o outro você não o escutará a partir de nada disso, mas do lugar vazio que a angústica cavou” … Então, num passe de mágica, veríamos milhares de psicólogos e psicanalistas inteiramente identificados com a ordem do mundo falando do indizível […]  (p. 121)

Um homem-profissão-caricatura, neste sentido, padece de uma exacerbação da moral, assim ele mapeia a psicopatologia, e esta é “ a versão cientificizada da moral”.

Pode-se entender, aqui, como que um Sartre está mais próximo de uma ciência psicológica, dentro do existencialismo. Mas no caso de  Heidegger, vale a advertência:  “Se Nietzsche desfez a mentira do mundo eterno, Heidegger desfez aquela, mais persistente, do mundo interno [intrapsíquico]”.

 

Referências:

PESSANHA, Juliano. Testemunho transiente. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

Professor de filosofia e membro do CEFA.
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4 thoughts on “Psicanálise está morta!

  1. Caro Professor,
    leia com atenção o meu último livro, primeiro volume da trilogia A psicanálise e a crítica filosófica, recém publicado com o título de “Heidegger ou as vicissitudes da destruição” (Ed. AGE, 2016), e poderá compreender como a crítica de Heidegger à psicanálise (que não é uma desconstrução, conforme equivocadamente afirmam alguns filósofos), a despeito de seu quase completo desconhecimento da obra de Freud, permite hoje ao psicanalista pensar e operar a sua atividade clínica a partir de um outro lugar, prescindindo da interpretação, do Édipo, das energias e da representação.
    Att
    Roberto Graña

  2. Roberto Graña, obrigado por ler e comentar.
    E obrigado também pela indicação do livro, vou lê-lo.
    Para uma análise mais exaustiva recomendo o próprio PESSANHA,Testemunho transiente. Pois há uma crítica, por via heideggeriana, de como o homem não sabe existir e sempre “existiu” por meio de filiação: filho de Deus (teologia), filho do macaco (biologia) e filho de pai e mãe (psicanálise) – p.114. Estas formas de filiação são o continuum da existência.
    A transferência de significado (continuum) é, em Heidegger, problemática: ” o Daísen se expressa, não porque esteja de início encapsulado como um ‘interno’ que se contrapõe a um externo, mas porque, como ser-no-mundo, ele, entendendo, já está ‘fora'” (Ser e Tempo; § 34. Ser-“aí” e discurso. A linguagem) .

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