Qual a relação entre a liberdade e a linguagem?

Essa pergunta surgiu em uma aula muito interessante de Filosofia da Linguagem. Ela é interessante porque nos faz pensar não apenas no que é a linguagem, mas também no que é a liberdade.

Essa questão parece manter implícitas as seguintes perguntas: a linguagem nos limita ou nos liberta? Se ela nos limita, no sentido de limitar nossas possibilidades de pensamento e comunicação, o que poderíamos fazer para alcançar a liberdade? Abdicar da linguagem, além de ser algo praticamente (ou totalmente) impossível de ser feito conscientemente, nos colocaria em um estado com ainda menos liberdade… ou de nenhuma liberdade, afinal, reivindicar um conceito, uma descrição ou uma noção de liberdade não pressupõe uma linguagem?

De fato, parece que a liberdade está atrelada aos limites da linguagem, e que é muito melhor viver dentro desses limites do que tentar aderir a uma vida sem linguagem. E nesse mundo limitado aos limites da nossa linguagem, a noção de liberdade parece ganhar uma forma diferente da que entendemos no senso comum: ao invés de uma liberdade que se tem ou não se tem, vivemos com uma liberdade que se tem dentro de limites que são constantemente expandidos.

Essa questão pode nos remeter a dois filósofos: Foucault e Rorty.

Foucault, ao analisar as relações de poder presentes nas sociedades, trabalhou com o conceito de “dispositivo” para expressar aquelas institucionalizações que determinam a nossa forma de viver em sociedade, de se comportar e de nos comunicar. A linguagem também surge, aí, como um dispositivo.: ela nos impõe regras e limites, e nós não temos muitas opções a não ser segui-las. Nem por isso Foucault considerava as relações de poder como algo a ser combatido, como algo que tira a nossa liberdade. Foucault não escreveu sobre as relações de poder em um sentido denunciativo, mas sim em um sentido descritivo. A ideia é que a nossa sociedade só é como é por conta dessas relações de poder — que podem ser aperfeiçoadas, mas não podem ser eliminadas sem que sejamos eliminados juntos.

Rorty, por sua vez, reconhecia os limites da linguagem a que Wittgenstein se referia, mas oferecia uma ferramenta capaz de expandir esses limites: a “redescrição”. À medida que criamos novas descrições, novas formas de tratar de problemas antigos, que utilizamos da linguagem para tornar o mundo um pouco melhor, estamos ampliando o nosso espaço lógico. Para Rorty, quanto mais liberdade de expressão garantimos a todos, maior a nossa capacidade de ampliação da linguagem.

A “liberdade da linguagem” é, assim, um constante “ser mais”. À medida em que ampliamos nosso espaço lógico, nos tornamos capazes de novas expressões, descrições, conceitos, sentimentos, etc. A liberdade condicionada da linguagem é capaz de tornar a própria linguagem, e isso nos inclui, um infinito. Esse infinito deve ser construído constantemente, infinitamente.

Acadêmico de Filosofia pela PUCRS. Bolsista de Iniciação Científica do CNPq. Pesquisador colaborador do CEFA. Editor adjunto da revista Redescrições, do GT Pragmatismo e Filosofia Americana da ANPOF. Também é membro do GT da ANPOF “Semiótica e Pragmatismo” e membro associado da The Richard Rorty Society.
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2 thoughts on “Qual a relação entre a liberdade e a linguagem?

  1. As ideias, quando apresentadas de forma clara, permitem que se pense com elas. A clareza se obtém quando uma ideia não atropela a outra. A arrumação das frases dá a ver o início, o meio e o final de cada ideia.
    Vejo isso em seus textos. Comento-os, penso, levando adiante uma ou outra ideia sua. Essa é uma forma de utilizar a linguagem de modo a ser livre, não?
    Indo por aí, o modo com que se usa a linguagem torna o usuário livre ou não. Será isso? Ou será que o texto claro, e a resposta clara, são um uso da linguagem, enquanto o texto obscuro, e a resposta obscura, são um não uso da linguagem (podendo ser uso de outra coisa)? Se isso estiver correto, o uso da linguagem leva à liberdade, por permitir o pensar e o falar.

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